Sim, devemos ter medo

João Gualberto Jr.

Não é qualquer cidadão relativamente esclarecido que coloca a mão no fogo pela solidez de nossas instituições democráticas. Esse tipo de sujeito cogita a iminência de levantes pseudorrevolucionários que subvertam a ordem, dado determinado contexto de corrosão dos princípios nas estruturas de poder do Brasil. Aponta ele para a fragilidade do arranjo estatal vigente, que teria por causas a juventude de nossa democracia e os desconfortos que sua prática gera, em meio à condição de corrupção e ineficiência que parece sem fim.

Ficcionismo? Pessimismo exacerbado? Até ontem, julgava que sim. Hoje, já não ponho a mão no fogo. A situação parece mesmo mais preocupante do que possa supor nossa vã timeline. Entra aqui uma primeira pergunta fundamental puxada por essas reflexões: o que o brasileiro quer de seu Estado?

Estamos convivendo, de umas semanas para cá, com comportamentos tipicamente fascistas, violentos, despidos de qualquer pudor legal ou moral. Preocupam não apenas as práticas por si, mas o respaldo e a legitimidade que recebem de parcelas influentes e bem-colocadas na sociedade.

Como não remeter ao contexto da ascensão nazista na Alemanha dos anos 30? Como não lembrar que, aqui, a tal classe média, a mesma que agora aplaude os ladrões acorrentados nos postes, deu suporte ao golpe militar há exatos 50 anos? Deu no que deu.

Hoje, além dos justiceiros valentões das quebradas, há os black blocs importados. Estes últimos, contraditoriamente, são demonizados pela tal classe média por ser arruaceiros e criminosos. Mas não são tão criminosos quanto os justiceiros?

MUITO EM COMUM

Na verdade, justiceiros e black blocs têm mais em comum do que distinções. Tanto uns quanto os outros buscam fazer justiça com as próprias mãos. E os dois ocupam lacunas do poder público no exercício da violência. Por parte: os justiceiros, descrentes da eficácia das forças de segurança e insatisfeitos com a estrutura da Justiça e das leis penais do país – que julgam branda – batem, prendem e matam aqueles que sentenciam como bandidos. Contudo, são eles próprios bandidos, pois o uso da violência é monopólio do Estado. Já os black blocs, com seus atos de performance política, tentam chamar a atenção para uma série de ineficiências dos sistemas de poder. Um de seus alvos de ataque mais concretos são os serviços públicos ruins. Mas, independentemente das causas, os mascarados também cometem crimes ao destruir o patrimônio público e o privado, porque o direito à propriedade é constitucional.

Em suma, temos lei, mas ela não parece ser respeitada ou compactuada por parte da sociedade. E o Estado, que deveria garantir seu cumprimento, deixa espaços vazios. É aquela velha máxima: poder, quando não é exercido pelo mandatário de direito, outro o acaba assumindo.

Vem a segunda pergunta essencial: qual o tamanho de Estado que o brasileiro quer? Essa é uma questão cuja resposta pode dizer muito além de suas palavras. E é de se temer a predileção do cidadão por mais Estado e menos lei hoje em dia. (transcrito de O Tempo)

5 thoughts on “Sim, devemos ter medo

  1. “Vem a segunda pergunta essencial: qual o tamanho de Estado que o brasileiro quer? Essa é uma questão cuja resposta pode dizer muito além de suas palavras. E é de se temer a predileção do cidadão por mais Estado e menos lei hoje em dia.”

    Esse flerte com a ilegalidade dos black blocs é fascistoide, pois impõe pela força, pela agressividade, usando do conhecido radicalismo político autoritário que já conhecemos de longa data. E agora levando nas costas o cadáver de um cinegrafista.
    Os partidos que financiam essas manifestações são de extrema esquerda (disfarçados de bom-mocismo, aplaudidos pelos intelectuais esquerdinhas e grande parte da mídia), assim, pela lógica, querem mais Estado.
    Quanto maior a participação do Estado na política menos liberdade de expressão, menos Democracia.
    É isso o que querem?
    Eu não quero.

  2. 1 – O quê é “ordem” no Brasil, hoje?
    2 – O quê é “o Estado, no Brasil, hoje?
    3 – Quem deu ao “Estado” o “monopólio da violência?
    4 – O “golpe militar” foi golpe ou contra-golpe?

  3. O único medo que tenho é das organizações criminosas empresariais que, efetivamente, comandam as instituições políticas brasileiras, que parecem ser consensuais na esquerda, direita e centro. Parece que o STF já percebeu o drama. Vai colocando a bandidagem na cadeia, até que se perceba, da lama política, a questão fundante.

    http://al-rs.jusbrasil.com.br/noticias/100028764/oded-grajew-financiamento-de-campanha-esta-a-servico-do-crime-organizado

  4. Parece que as últimas pesquisas de opinião indicam que a maioria dos brasileiros, dentre os quais eu me coloco, desejam MAIS MÉDICOS, MAIS MORADIAS, MAIS EMPREGOS, A COPA, COMBATE A CORRUPÇÃO, MANUTENÇÃO DOS PROGRAMAS SOCIAIS TAIS COMO BOLSA FAMÍLIA, PROUNI, MINHA CASA MINHA VIDA, PROGRAMA LUZ PARA TODOS, MANUTENÇÃO DO DIREITO A LIVRE MANIFESTAÇÃO PACÍFICA, MAIS DEMOCRACIA. Em resumo, tudo o que o atual governo já nos assegura porém ainda melhor.

  5. Temos que ter medo desse governo que tem como orientação o marxismo-leninismo.
    É a extrema-esquerda no governo com os mesmos procedimentos de qualquer ditadura. Quem não se lembra da operação Condor de Tarso genro ao entregar dois atletas cubanos ao ditador Fidel?
    E há pouco Dilma se acariciando com o Ditador ao qual lhe dá sustentação com o dinheiro do povo brasileiro. E Pior, pratica a escravidão como no caso dos médicos.
    Temos que ter medo dessa gente em que a mentira faz parte de sua ideologia, inclusive a de dizer que os bandidos presos pela população nos postes é coisa da classe média e não a ineficiência desse governo em combater a criminalidade.
    Aliás, o chefão do PT é um criminoso e está na cadeia.

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