Sinalizando para o mercado

Carlos Chagas

Nada de novo. Tudo se repete, desde Fernando Henrique ao  Lula e agora a  Dilma Rousseff. Como candidatos, primeiro trataram de conquistar a maioria, tanto faz se visando mais  as massas ou a classe média, com mensagens reformistas e promessas de melhoria de vida para todos. Cada um no seu estilo, os três se apresentaram como mágicos capazes de tirar da cartola mais escolas, hospitais, estradas, empregos,  obras públicas e tudo o mais.  Propostas e promessas de nítido viés esquerdista, ainda que jamais radical.

Depois, uma vez consolidada a perspectiva de vitória,  mais perto das eleições, é hora de virar o jogo e prestar contas aos que realmente decidem, as elites.  Contenção de gastos públicos, ajuste fiscal, maior combate à inflação, menos reajustes salariais, começando pelos funcionários públicos, diminuição do tamanho do estado. Em suma, a hora de sinalizar para o mercado que nada vai mudar, muito pelo contrário.

Fernando Henrique resumiu  a manobra numa única frase, pouco antes de assumir: “esqueçam tudo o que escrevi”. O Lula fez o mesmo  na célebre “Carta aos Brasileiros”.  Dilma ainda não rotulou a palavra-chave, mas sua estratégia não  parece diferente. Logo encontrará uma definição para o “turning point” de sua trajetória para o Planalto. Trata-se de mera questão de tempo. Já conquistou a maioria do eleitorado, como os dois antecessores haviam  conquistado,  tornando-se agora necessário prestar contas à minoria que manda.   É o que seus principais auxiliares vem vazando para a mídia, em repetição monótona da mesma fórmula voltada para o mundo dito globalizado.

Quanto aos que estão sendo iludidos mais uma vez, problema deles. Não aprendem mesmo. Melhor esperar novas eleições…

Especulações precipitadas

Com a consolidação das chances de Dilma Rousseff, começam as especulações a respeito de seu governo. Ainda que ela rejeite a precipitação, não há  como evitar a corrida para o  novo  ministério e adjacências. O PT sai na frente, talvez por ingenuidade. De um lado os que já ocupam postos e funções no governo Lula, de outro os garfados e os insatisfeitos com sua influência atual. Correndo por fora,  o PMDB, trabalhando já não tanto  em silêncio, mostrando garras e presas capazes de transformar o partido em condômino, não apenas simples  aliado ao poder.

Claro que tudo dependerá das eleições para o Congresso, mantendo os companheiros a esperança de ampliar suas bancadas. Tudo indica que vão quebrar a cara, tornando-se  reféns do maior partido nacional. Nessa hora, a nova presidente será prisioneira do sistema.

São Paulo no centro da campanha

Com todo o respeito, mas o Brasil é  maior do que São Paulo. Apesar  de seu peso eleitoral, noves fora o econômico e o intelectual, o estado não pode ser tido como o fator decisivo para as eleições de outubro. Os candidatos, no entanto,  comportam-se como se fosse assim. Os dias de permanência e de  campanha em São Paulo suplantam o período de cada um dos  principais candidatos no restante do país.  Tome-se ontem, por exemplo: a vigília na porta de fábricas,  para Dilma, acompanhada pelo Lula, foi em São Paulo. Serra  e Plínio também permanecerem em sua base, aspirando Marina para lá.

Faltam fábricas em Pernambuco? Avenidas em Minas ou no Piauí,  para passeatas? Redes de televisão e de rádio no Sul, para entrevistas e debates? O argumento varia: Dilma e Lula querem virar o jogo da sucessão  no  estado, de Alckmin para Mercadante. Serra teria desistido de conquistar o Nordeste.  Marina levaria para o asfalto a disputa ambientalista.E Plínio identificaria nos trabalhadores paulistas o público alvo de sua  pregação  revolucionária.

Dia de meditação

Hoje, 24 de agosto, mais um dia de meditação sobre o Brasil imaginado por Getúlio Vargas. A potencialização de nossas riquezas não aconteceu como ele pretendia, até a Petrobrás, criada em seu último governo, acabou oferecida na Bolsa de Nova York. A remessa de lucros para  o estrangeiro, hoje, é igual ou maior do que quando de  sua denúncia. Das empresas estatais por ele estimuladas, sobraram o Banco do Brasil e a Caixa Econômica. Os direitos trabalhistas em grande parte saíram pelo ralo,  estando o  que  sobrou sob fogo batido das elites. Basta reler um dos documentos mais  importantes de nossa História, a Carta-Testamento.  E quanto ao vaticínio de que com ele os trabalhadores estavam no governo, mas em seguida seriam o governo, melhor não comentar…    

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