Singer tenta voar no tempo: de Vargas a Lula

Pedro do Coutto

Num ensaio muito bem escrito, duas páginas da Folha de São Paulo, numa edição de domingo, o jornalista André Singer, ex-porta-voz do atual presidente, tenta um vôo no tempo, uma espécie de ponte histórica entre Vargas e Lula. Interessante o estilo, fascinante a história que parece ter presenciado, Brizola levando Luis Inácio da Silva a visitar o túmulo de Vargas em São Borja, criando um diálogo hamletiano entre o passado e o presente. Deve ter ocorrido em 98 quando o ex-governador do Rio de janeiro foi candidato a vice na chapa da figura maior do PT.

André Singer em seu extenso texto tenta desenvolver uma filosofia entre os caminhos dos dois líderes. Consegue em parte encontrar uma essência comum, a do arrebatamento das grandes massas. Mas comete equívocos. Quem se propõe a comparações de épocas tão diferentes está sujeito a cair nas armadilhas da História. Sobretudo Singer, moço demais, que não viveu a era Vargas. Um dos enganos é classificar Vargas de populista.

A criação da CLT, em 1943, a lei que terminou com o trabalho semi-escravo no Brasil é populista? Ou reformista? Creio que o jornalista da FSP não leu a Consolidação das Leis do Trabalho e não analisou seu significado numa época em que o capital não admitia o progresso social de forma alguma. A criação da Petrobrás foi populismo? A transformação da Itabira Iron em Vale do Rio Doce? A criação do IBGE? A implantação da Cia. Siderúrgica Nacional? O projeto da criação da Eletrobrás, encaminhado ao Congresso em 53, e que demorou dez anos para ser transformado em lei por João Goulart? A implementação da Previdência Social, muito mais custeada pelas empresas do que pelos empregados, foi populismo? Singer necessita informar-se melhor. Vargas, um ditador que acobertou a tortura contra presos políticos, é uma de suas faces. Mas não a imagem plena.

É fundamental considerar-se que Vargas governou, de 39 a 45, em plena Segunda Guerra Mundial. De um lado Hitler e Mussolini, depois Hiroito, de outro Winston Churchill e Roosevelt, os dois maiores estadistas da história. Foram tempos difíceis – definiu o chanceler Osvaldo Aranha na última entrevista de sua vida – o presidente não podia errar, acrescentou.

André Singer quando aterrisa no aeroporto lulista cresce em seu ensaio. São ótimos os conceitos a respeito do presidente reeleito que vai eleger sua sucessora, ajudado pelo destino a partir da impopularidade de Fernando Henrique na fase final de seu segundo mandato. Motivos concretos não faltaram. Basta lembrar as crises energéticas de 2002. Foram duas seríssimas.

Lula, como sustenta Singer, encarnou a proteção aos pobres. Porém não só isso. O Bolsa Família, que Singer destaca, este sim é um programa populista, na medida em que é uma doação governamental. O crédito consignado, a juros mensais de 2,5% para aposentados do INSS e funcionários públicos, significa um alçapão para a pobreza. Não redistribui nada. Ao contrário, a concentra. Já a expansão do crédito, que tanto incentiva o consumo e, como reflexo, uma sensação de bem-estar social, decorre da adoção de uma nova moeda no país: a moeda escritural. Um saque para o futuro. Tal sistema, como na poesia de Vinicius de Moraes e Tom, precisa de vento sem parar.

A popularidade de Lula é incontestável, conseqüência de sua personalidade, sua capacidade de absorver golpes, principalmente vindos de falsos aliados e falsos amigos, de seu carisma no encontro com o povo nas ruas e nas telas da TV. Realizou entretanto coisas concretas. Assim não fosse, não haveria marketing que o sustentasse. Singer tem razão nisso. Mas está absolutamente errado quando compara agosto de 54 com a crise do mensalão de 2005. Essa não, André Singer. Não diga isso nunca mais. Por favor.

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