Só falta a cadeia

Carlos Chagas                                                      

Desmantelada pela presidente Dilma a quadrilha que atuava no ministério dos Transportes, o ultimo capítulo está para ser encenado, se  é que não foi ontem, às 17 horas, quando o ministro Alfredo Nascimento viu-se  convocado ao palácio  da  Alvorada, certamente para ser demitido ou ganhar algumas horas para pedir demissão. Ele havia faltado ao encontro do dia 24, quando Dilma  desmascarou os bandidos que superfaturavam consultorias e obras de implantação e  manutenção de rodovias e ferrovias, mancomunados com empreiteiras variadas.                              

De qualquer forma,  Nascimento  não é mais ministro, assim como o deputado Waldemar da  Costa Neto, o chefe da quadrilha, não tem mais gabinete no ministério, de  onde,  sem ser funcionário, comandava o  esquema de corrupção na base de 4 ou 5% de comissão escoados para os cofres do Partido da República ou para o bolso do parlamentar. 

Arcabuzados já foram Luiz Antônio Pagot, diretor-geral do DNIT, Mauro Barbosa, chefe de gabinete do ministro, José Francisco das Neves, da Valec, e Luiz Tito, arrecadador geral. Melhor assim, pois Dilma Rousseff agiu com rapidez diante  das evidências da roubalheira, ainda que  duas ações  complementares se façam urgentes: botar os ladrões na cadeia, de preferência algemados, e identificar empresas e empresários envolvidos no pagamento de propina para declara-los inidôneos pelo resto da vida.                                                        

Trata-se do primeiro escândalo de vulto registrado no atual governo e a reação da presidente  da República não deixa dúvidas de que ela está mais para Itamar Franco do que para Fernando Henrique Cardoso e   Luiz Inácio da Silva. Sem contemporizar, ao primeiro sinal de denúncia afasta   todo mundo. 

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SAUDADES DO ITAMAR                                                        

Duas vezes, como presidente da  República, Itamar Franco veio jantar em  minha casa, em Brasília, no tempo em que os presidentes da República  vinham jantar para conversas informais com jornalistas da crônica política. Na primeira,  ocupava interinamente a chefia da nação.  Apesar  de pela Constituição  Fernando Collor ainda poder voltar, Itamar havia  mudado todo o ministério. Confrontado com a imagem do antecessor, que tentara implantar a modernidade na economia do país, disse só aceitar a modernidade que levasse a todos os cidadãos os benefícios da civilização e da cultura.  Aquela definição marcou sua passagem de  dois anos e meio no governo, tornando-se uma espécie de anteparo aos ventos neoliberais do antecessor e do sucessor.                                                       

Na segunda vez, com a sucessão já definida em favor de Fernando Henrique, contou haver recebido o Lula em seu gabinete, no Planalto, servindo-lhe uma cachaça especial de Minas Gerais e dizendo que a garrafa ficaria ali à sua espera. Acrescentou que quanto mais velha ficasse a bebida, melhor. Era uma espécie de alento ao líder operário para aguardar com calma a passagem do  sociólogo pelo poder,  porque em seguida chegaria  a sua hora.                                                        

Agora que Itamar se foi, multiplicam-se elegias e panegíricos em sua homenagem, na imprensa inteira. É o reconhecimento póstumo de seu valor, porque enquanto  presidente recebeu petardos e pedradas da maior parte dos  meios de comunicação.  Os paulistas chamavam-no de caipira e atrasado, por haver sugerido ao presidente  da Volkswagen voltar a produzir o fusquinha, na verdade o único veículo que a classe média baixa podia adquirir.  Os cariocas zombavam dele por comportar-se como um homem comum, livre depois de desquitado,  dado a uma ou outra eventual conquista.                                                        

Poucos, como Itamar, representaram o brasileiro  médio, igual aos demais. Inflexível no trato da coisa pública e intolerante com a corrupção,  não vacilou  em afastar amigos e colaboradores acusados de irregularidades ou flagrados em incontinências verbais,  como Eliseu Resende, Rubem Ricupero e Henrique Hargreaves.                                                       

Deixando a presidência da República, verificou não ter como sobreviver, sem patrimônio nem emprego. Nomeado embaixador por Fernando  Henrique e depois  pelo Lula, nem por isso escondeu suas discordâncias com ambos. No interregno elegeu-se governador de Minas, insurgindo-se contra a ameaça de privatização da CEMIG. Mobilizou a Polícia Militar para cercar e  defender o palácio da Liberdade, levando para o além,  agora, as informações de que dispunha sobre a iminência de um ataque federal a Minas.

Adversário da reeleição, negou-se a disputar um segundo  mandato no governo mineiro, quando facilmente seria reeleito. Pena que seu retorno ao  Senado tenha durado menos de seis meses. Lá era sua casa, onde chegou com a onda de vitórias do MDB, em 1974,  jovem prefeito de Juiz de Fora. Permaneceu por dois mandatos, como dizia, o período mais fértil de sua vida política.

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