Sob a égide de Pôncio Pilatos

Carlos Chagas

Dilma Rousseff lavou as mãos. Disse não ser candidata a prefeita de São Paulo, forma de negar ter nomeado Marcelo Crivella para ministro visando evitar que o partido do senador venha a apoiar José Serra ou a lançar candidato próprio. Numa palavra, a presidente saltou de banda diante da candidatura de Fernando Haddad.

 O problema é que mesmo sem ser candidata a prefeita, ela será afetada pelo resultado das eleições para a prefeitura paulistana. Ganhando José Serra, hoje na liderança das pesquisas, dormindo ou não as pretensões do ex-governador ao palácio do Planalto, em 2014, a reeleição de Dilma sofrerá com o crescimento do PSDB.

Detendo o governo do estado e a prefeitura não apenas de São Paulo, mas de Minas, não será fácil enfrentar os dois maiores colégios eleitorais do país liderados pelos tucanos. Em especial se seu adversário for Aécio Neves, como parece. Dilma não é candidata a prefeita de São Paulo, nem de Belo Horizonte, nem do Rio ou qualquer outra capital, mas pertence ao PT, que ficará enfraquecido no caso de derrota nas principais cidades.

É o seu futuro que estará em jogo em outubro, apesar de alguns áulicos argumentarem com seus altos índices de popularidade. Estaria blindada contra a falta de votos para os companheiros candidatos? Acresce que seus antecessores na presidência da República jamais deixaram de participar das eleições paulistanas. Vencendo ou perdendo, Lula, Fernando Henrique e outros jamais deixaram de pedir votos aos eleitores da capital.

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PREVALÊNCIA DOS PARTIDOS

De novo no país na quinta-feira, a presidente Dilma precisará de imediato descascar três abacaxis: PDT, PR e PMDB. Com relação aos trabalhistas, a dúvida é saber se nomeará para o ministério do Trabalho alguém indicado por Carlos Lupi ou um ministro desvinculado ou até adversário do presidente do partido. O PDT ameaça tornar-se independente no Congresso, tendo a maior parte de seus deputados votado recentemente contra o governo, num projeto pouco importante. Mas poderá avançar até o apoio à candidatura de José Serra, em São Paulo.

Os republicanos encontram-se na mesma situação, ávidos de retornar ao ministério dos Transportes, apesar da inclinação da presidente de manter Paulo Passos. Cedendo, terá evitado que o PR apresente Tiririca como candidato, uma afronta explícita à sua liderança. O abacaxi mais azedo, porém, é o PMDB, em estado de rebelião por ocupar, segundo seus líderes, apenas ministérios pouco importantes.

O grau de valor nessa singular visão dos peemedebistas mede-se na razão direta dos recursos postos à disposição dos ministérios. Quanto mais obras, serviços e decisões envolvendo contratos, melhor. Assim, o partido é apoiado até pelo vice-presidente da República, Michel Temer. Fazer o quê, para Dilma? Dar mais carne às feras aumentaria o nível de pressões, mesmo do PT.

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PAUSA PARA UM TEMA SÉRIO

Aécio Neves parece haver trocado o microfone do Senado pelo artigo semanal que a Folha de S. Paulo publica. Ontem, deitou novamente tacape e borduna no governo Dilma Rousseff, ao escrever: “A qualidade dos serviços públicos a que a população tem direito não pode ser regida pela lógica da matemática financeira”.

O ex-governador denunciou estar a federação cada vez mais ameaçada pelo poder central. Reconheceu que essa aberração começou no governo Fernando Henrique e demonstrou que a União incentiva o setor privado, emprestando a juros baixos e subsidiados, penaliza os investimentos públicos a cargo dos estados através altíssimos encargos financeiros.

Eis um tema que transcende de muito o debate fisiológico estabelecido entre o governo e os partidos. Trata-se da sobrevivência dos estados e da federação, ameaçados pela sombra do estado unitário. Algo que deveria ser objeto da preocupação da equipe econômica e da própria presidente Dilma. Porque os estados não tem como pagar a dívida com a União, multiplicada de ano a ano.

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PAUTAS TRANCADAS

Três medidas provisórias trancam a pauta de votações na Câmara dos Deputados. Podem ser votadas esta semana, mas garantir, ninguém garante. No Senado, são duas. Muita gente fica pensando que o Congresso finge mas não se encontra no papel de vítima pela alegação de que, enquanto existirem as medidas provisórias, o Legislativo permanecerá à mercê do Executivo.

Pode ser de propósito, porque a demora em votar as medidas provisórias deve-se exclusivamente a deputados e senadores. As respectivas mesas preparam as ordens do dia e poderiam facilmente limpar as pautas. Como podem estar querendo protelar a votação de determinados projetos de interesse do governo, não votam as medidas provisórias.

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