Sobre a Guerra do Rio: ‘o estado policialesco é utopia’

Milton Corrêa da Costa

Dois assaltos a imóveis ocorreram no ultimo final de semana no bairro do Jardim Botânico, na Zona Sul do Rio, num período de seis horas, entre a noite de sábado e a madrugada de domingo. No assalto a uma residência os moradores, amigos da família e o próprio vigia da rua tiveram pertences roubados e permaneceram como reféns por cerca de 45 minutos no interior do imóvel. Uma das vítimas disse que os bandidos, durante o assalto, estariam sendo instruídos de fora por radiostransmissores. No outro caso, de assalto a uma produtora de vídeos, ao soar o alarme a PM logrou prender um dos três assaltantes. Era residente na ladeira dos Tabajaras, em Copacabana.
Tais fatos nos trazem reflexões e nos remetem a uma análise conjuntural que envolve o contexto da violência urbana observada no Rio e em suas cercanias há alguns anos.

Com a recente implantação das UPPs em morros e favelas da capital e a permanente repressão ao tráfico de drogas, o banditismo, além de migrar para outras regiões do entorno do Rio vem desenvolvendo outras modalidades de práticas criminosas na tentativa de repor suas perdas financeiras com o comércio de drogas.

O assalto a residência, o sequestro-relâmpago e o roubo de veículos e de cargas são modalidades de delito, com base na ação do elemento surpresa, praticado pela criminalidade que tem desafiado a inteligência policial ultimamente.

É inimaginável, no entanto, pensar na criação do estado policialesco, a sociedade total de controle, como solução de todos os problemas da violência. Isso é utopismo. A polícia onipresente não existe e nunca existirá. O estado, ainda que tenha como projeto incorporar aos seus quadros, somente este ano, 7 mil novos policiais militares, conforme noticiado em recente matéria jornalística, tem limites de dotação orçamentária e de caixa para contratação de pesssoal e há outras áreas também prioritárias da administração pública como saúde, educação, habitação, saneamento básico. A pólicia sempre terá o cobertor curto por mais que se contrate novos policiais. Isso é fato real.

Por outro lado, o crime é um fenômeno cíclico, dinâmico, cuja finalidade precípua é o lucro. Também é certo que a cobrança por mais e mais policiamento ostensivo sempre existirá. É preciso, porém, relativizar as possibilidades do aparelho policial. As 11 cracolândias existentes na cidade do Rio, com os 3 mil dependentes da ‘droga da morte’, são, por exemplo, muito mais problema de saúde pública do que de polícia. Há que se considerar ainda que a violência é um fenômeno presente e crescente no trânsito, nas redes sociais, no interior de escolas públicas e particulares, entre torcidas organizadas de futebol, contra minorias e mesmo em atos reivindicatórios por justiça social no mundo. Vivemos num mundo mais violento. Também não há dúvida disso.

Entretanto, a melhor estratégia, para conter a criminalidade atípica do Rio, é tornar a polícia permanentemente proativa – a que se antecipa ao crime com base em dados da inteligência policial. É preciso operar permanentemente e sufocar os redutos do tráfico, neutralizando o crime em sua origem. A polícia reativa, a que reage pós-fato, acabou no mundo. Assaltantes de residência, ladrões de carro ou os que cometem sequestro-relâmpago geralmente saem de morros e favelas e para lá retornam. Ou a polícia se torna definitivamente proativa ou o elemento surpresa sempre a surpreenderá. O estado policialesco é inimaginável e irreal.

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