Sobre a lei e a regra do jogo, na visão internacional dos irmãos Batista

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Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Eduardo Oinegue
O Globo

Nunca se saberá a que tamanho chegaria a JBS sem propina. Com propina, virou a maior empresa privada nacional. No ranking Fortune 500, que lista as gigantes americanas, está à frente da Nike, 3M e McDonald’s. Tornou-se ainda a segunda companhia global de alimentação, atrás da Nestlé.

Como os Batista não rasgam dinheiro, a corrupção deve ter sido útil. A impossibilidade de medir o tamanho dessa utilidade não impede uma discussão oportuna. Por que Joesley e Wesley, que subornaram tanto no Brasil, evitaram repetir o método nos demais países onde a JBS atua?

PROPINAS NO BRASIL – Os Batista confessaram ter entregado US$ 180 milhões a 1.829 políticos brasileiros. Quase US$ 100 mil por cabeça. Na delação, contudo, não há uma linha sobre propina paga a político ou autoridades do exterior, onde estão 80% do faturamento do grupo. Metade das vendas globais da JBS se concentra nos Estados Unidos.

Segundo Cláudia Trevisan, correspondente de “O Estado de S.Paulo” em Washington, entre 2007 e 2014, a JBS aplicou US$ 7 milhões em lobby feito legalmente na capital americana. Isso dá 4% da propina gasta no Brasil.

Nas campanhas políticas, a diferença choca. Em 2014, a JBS desembolsou oficialmente US$ 150 milhões no Brasil, e US$ 300 mil nos Estados Unidos. Ainda que tenhamos tido eleições gerais por aqui, e lá eleições parlamentares, a diferença é de 500 vezes.

AQUI E LÁ FORA – Vê-se que tiveram o cuidado de agir de forma diferente aqui e lá fora. Por quê? Uma explicação pode ser a maneira como os Batista interpretam o conceito de limite. Existem pessoas que respeitam limites em qualquer situação, apenas porque os limites existem, não por receio de punição. É gente que nunca fecha um cruzamento por princípio, não porque o guarda está vendo.

Nos países mais atentos aos limites, o servidor público não assina o ponto para ir embora sem dar expediente, as pessoas não pagam o médico sem nota fiscal, não furam filas, nem deixam o lixo em qualquer lugar. É assim no Japão.

Na Copa do Mundo de 2014, os torcedores japoneses deram um show nos estádios brasileiros ao recolher o lixo que haviam produzido durante a partida. Se eles sujaram, eles deveriam limpar.

AVALIAÇÃO DE RISCO – Joesley e Wesley talvez tenham preferido decidir por observar ou não os limites após uma avaliação de risco. Nos Estados Unidos, a chance de ir para a cadeia é maior do que a de fechar um acordo com perdão judicial? Melhor andar na linha. No Brasil dá para aprontar e depois pagar pela inocência? Ok transgredir.

Após a delação, Joesley concedeu uma entrevista a Diego Escosteguy, da “Época”. Nas respostas, assumiu a existência de um critério geográfico de limites. “Competimos sem propina nos Estados Unidos, na Austrália, na Inglaterra, no mundo inteiro. No Brasil, infelizmente, a propina era o custo de operar”, respondeu. “Era a regra do jogo”.

Há um lado lamentável na declaração. Constatar que a JBS Made in USA seguia a lei, e a JBS Made in Brazil, a “regra do jogo”. E tudo feito de forma velada. A JBS possuía até um Manual de Conduta Ética, que dizia que “prometer, oferecer, receber ou autorizar (…) qualquer forma de suborno (…) são condutas inaceitáveis”.

UM LADO ANIMADOR – Há, contudo, um lado animador, uma oportunidade de avançarmos. Fica comprovado que até pessoas dadas à transgressão, como os Batista, conseguem seguir regulamentos. Se não por princípio, como os torcedores japoneses, ao menos por medo das consequências.

A consequência, e não a indulgência, pode fazer com que lei e regra do jogo se tornem sinônimos. Sinônimos de limite. (artigo enviado por Mário Assis Causanilhas)

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