Sobre o Brasil real e o Brasil formal

Carlos Chagas

Aloísio Mercadante falou como  ministro   da Fazenda, na Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado, ontem.  Abordou a industrialização dos tempos de Getúlio Vargas, não esqueceu Juscelino Kubitschek, registrou o crescimento econômico  em parte do período militar, lamentou a inflação desmedida, elogiou Fernando Henrique e  exaltou os governo  do Lula. Abordou o desenvolvimento do setor de ciência e tecnologia, com ênfase para o etanol, criticando o fato de que hoje  somos outra vez  exportadores  de matérias primas,   mas afirmando que o conhecimento é  nosso maior potencial, no qual o governo Dilma investe sem cortes orçamentários.

Junte-se a exposição do ex-senador aos dados divulgados na véspera pela Fundação Getúlio Vargas, sobre a ascensão das classes D, E e C na divisão da renda nacional e se terá a impressão de que  ninguém segura este país.  Afinal, 3,7 milhões de cidadãos passaram a ganhar de 1.200 reais   a 5.174 mil por mês.

Maravilha? O Nirvana à vista de todos, na próxima curva? Confetes e serpentinas em profusão, fora do Carnaval?

Não é bem assim. O Brasil real encontra-se a milhas de distância do Brasil formal das estatísticas. Basta atentar para o número de indigentes soltos pelas ruas de cidades grandes e pequenas, em especial nesses dias de baixas temperaturas.  A multidão de desesperançados vendendo óculos ou pedindo esmola nos semáforos e praças. As legiões de jovens sem emprego, tanto faz se oriundos da pobreza ou frequentando cursos profissionalizantes  e até com  diplomas universitários. Os que cedem á tentação do tráfico sempre crescente e os que optam pela violência.  Sem esquecer a falência do sistema de saúde pública quando se trata de atender os menos favorecidos.

Trata-se de um outro Brasil que se desenvolve em paralelo ao Brasil ufanista construído pelos detentores do poder, quaisquer que sejam.  Somos a  sétima economia do mundo, caminhando para novos patamares?  Sem dúvida,  mas parte da nossa base social vai ficando para trás, agora com o ingresso dos antigos defensores das massas no grupo dos caolhos que apenas vislumbram o progresso.  Somos os maiores usuários de telefones celulares e campeões da compra e do uso de computadores, mas entre 190 milhões de brasileiros, aumenta o número dos que vão ficando para trás. Azar o deles, dirão as elites. É da vida, acrescentam os privilegiados. Seria  bom tomar cuidado.

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ABERTA A TEMPORADA?

As eleições municipais do ano que vem representarão um  ensaio geral para a sucessão presidencial de 2014. Mal completados seis meses do governo Dilma, já se dá como certa a candidatura do ex-presidente Lula, com a concordância da sucessora. O esforço do PT será eleger o maior número possível de prefeitos das capitais e grandes cidades. Tornar-se o partido  campeão de votos, mesmo sem alcançar o maior número de prefeituras. Asfaltariam a avenida por onde desfilaria o primeiro-companheiro.

Por coincidência, essa é a estratégia do PSDB, sem esquecer que o PMDB, até agora, detém o controle da maioria dos municípios. Os tucanos já dispõem de um candidato disposto a enfrentar o Lula, ainda que preferisse mil vezes disputar o palácio do planalto contra Dilma Rousseff: o senador e ex-governador Aécio Neves.

Quanto ao PMDB, tudo indica preferir deixar as coisas como estão, ou seja, preservar Michel Temer como vice-presidente.  Fica difícil, em especial  no Brasil, prever o que acontecerá daqui a quinze minutos, quanto mais daqui três anos. Mas dessa dicotomia entre Lula e Aécio não se fugirá muito.

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ESFORÇOS PARA JOBIM FICAR

Tem duplo sentido a missão dada pela presidente Dilma Rousseff ao ministro Nelson Jobim, de procurar convencer os ex-presidentes José Sarney e Fernando Collor a abandonarem a defesa do sigilo eterno. Primeiro porque o governo caiu em si e desistiu de defender o absurdo. Depois porque seria  muito  melhor se  houvesse consenso, quando da votação da matéria.

Outra finalidade da estratégia de Dilma é de prestigiar ao máximo o ministro Jobim,  para que ele se convença da importância de continuar na Defesa. Encontrar um substituto equivaleria a inevitável  dor de cabeça para a  presidente da República.

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NA MOITA

Quem parece ter-se recolhido, interrompendo até os jantares em que reunia aliados no palácio do Jaburu, é o vice-presidente Michel Temer.  Mantendo a posição firme de que o PMDB tem que participar mais do governo e das decisões da presidente Dilma, o ex-presidente da Câmara não deseja contribuir para o acirramento dos ânimos entre as bancadas de seu partido e o palácio do Planalto.

Se o objetivo maior é a participação, melhor evitar conflitos e confrontos, ao menos decorrentes de sua condição de vice-presidente.  As negociações estão entregues, ao menos por algum tempo, ao presidente interino do PMDB, senador Waldir Raupp. Como do outro lado a condução dos entendimentos fica por conta da ministra Idely Salvatti, conclui-se que a presidente Dilma também optou pelo recolhimento no diálogo com o partido de seu vice-presidente.

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