Sobre o complexo de vira-lata

Carlos Chagas 
                                              
Para espantar a urucubaca de hoje, sexta-feira, 13, só lembrando Nelson Rodrigues, o mais supersticioso dos brasileiros, para quem tudo o que acontecia no seu tempo estava escrito há dois mil anos. Longe de ser apenas um reacionário, o genial cronista intercalava  textos de submissão aos poderosos com  momentos de exacerbada independência e  nacionalismo. Veio dele o conselho de que  precisávamos  perder rapidamente o complexo de vira-lata, inflando o peito e demonstrando a força inerente à nossa condição de país continental.
                                              
Passou muito tempo de sua partida, o Brasil mudou, afirmou-se no cenário internacional e avança para ser incluído no clube das nações mais importantes do planeta.
                                              
Só que de vez em quanto ainda sofremos certas recaídas caninas. Tome-se a empáfia com que somos tratados por certos importadores de nossos produtos.  Dia sim, outro também, a Rússia suspende as remessas de  carne que recebe para matar a fome de seu povo, como se estivesse fazendo um favor em importar o produto de nossos rebanhos e a modernidade de nossos  frigoríficos.

É precisamente o contrário. Sem a carne brasileira,  sofreriam os russos, nossos maiores fregueses. No entanto, impõem exigências descabidas e fiscalizações exageradas,  quando fica óbvio que se parassem de  importar, nós sobreviveríamos, mas eles iriam para o buraco. O que acontece, porém, é o oposto. De chapéu na mão, submetemo-nos às suas determinações, quase imploramos para continuar alimentando o povo das estepes. 

Multiplique-se esse relacionamento por outros países e outros produtos que mandamos para fora. Dos frangos à carne de porco, da soja ao minério de ferro, tem-se a impressão de estarmos na dependência da caridade externa para continuarmos a exportar, quando na  realidade somos nós a fornecer o que eles precisam. E nem se fala, hoje, dos  preços a nós impostos, quando seu valor deveria ser estabelecido aqui, não nessas bolsas  de commodities funcionando lá fora.
                                                
De quando em quando alguns bissextos meios de comunicação denunciam o escândalo do nióbio.  Detemos  mais de 90% das reservas mundiais de um mineral imprescindível à mais sofisticada indústria do planeta, de foguetes a naves espaciais e sucedâneos. Apesar disso, exportamos nióbio a preço de banana podre, somos explorados por multinacionais e governos variados. Mas o nióbio, assim como a carne, a soja e minério de ferro são nossos, estão aqui, devem-se à natureza e ao esforço nacional. Vale repetir, são os outros que precisam  importar, apesar dos óbvios prejuízos que teríamos caso parássemos de exportar.

Diga-se, porém,  outra vez: sobreviveríamos. Eles,  não…

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A MAIS NOVA CAVERNA DO ALI BABÁ
 
De tempos em tempos somos surpreendidos com a descoberta de maracutaias monumentais, praticadas através dos anos sem conhecimento da nação. Já foram os tais cartões corporativos, assalto ao erário  praticado por montes de governantes. Há pouco, soubemos da existência dos tais bônus  semestrais pagos a diretores de empresas estatais, valores bem superiores à soma de seus vencimentos anuais. Um escândalo, porque se igualam aos dirigentes de empresas privadas que distribuem o que é deles, enquanto nas estatais, refestelam-se no que é público.
                                              
Pois agora acaba de ser exposta outra caverna do Ali Babá, também daquelas abertas há décadas nos planos municipal, estadual e federal. São os tais conselhos de empresas públicas e até da administração direta, para os quais são nomeados secretários, ministros, altos funcionários e até    protegidos e amiguinhos de prefeitos, governadores e presidentes da República.  Recebem, os  felizardos, polpudos jetons a pretexto de participarem de bissextas reuniões nas empresas para as quais foram aquinhoados. 
                                                  
Na  prefeitura de São Paulo levantou-se apenas a ponta do tapete. No país inteiro é a mesma coisa, nos três planos administrativos. Os conselhos servem para reforçar os vencimentos dos detentores do poder, ou para acudir a  falta de caixa de seus aliados. O diabo é que tudo se faz com dinheiro público, sem a contrapartida de estarem contribuindo para a melhoria da administração das empresas estatais e sucedâneos.

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PONTO PARA AÉCIO 
                                             
A Comissão de Constituição e Justiça do Senado acaba de aprovar  relatório do senador Aécio Neves, limitando um pouco mais o poder de os governos editarem medidas provisórias. O ex-governador de Minas conseguiu o milagre de reunir, em seu texto, governistas e oposicionistas. Não foi o ideal, que para muitos seria a pura e simples extinção desse expediente parlamentarista em pleno sistema presidencialista. Pelo menos, se depois  aprovado pelo Congresso, o projeto de emenda constitucional  acabará com os chamados “bodes” das medidas provisórias:  baixadas a respeito de um determinado tema, elas tem recebido  muitos outros na forma de emendas, sem o menor relacionamento entre estes e aqueles. Pelo menos, interrompe-se a farra dos éditos do trono que não possuem caráter de urgência nem de relevância. 
                                              
Haverá que aguardar o pronunciamento do plenário do Senado e, depois, da Câmara, tendo-se presente que nenhum partido abrirá mão  das medidas provisórias. Os que estão no poder atuam para manter  a prerrogativa. Os oposicionistas sonham chegar lá.

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QUEM SERÁ O  MONTGOMERY?
 
No auge da reação dos Aliados contra a dominação do mundo por Adolf  Hitler, destacou-se o general Bernard Montgomery, comandando os exércitos ingleses no Norte da África, na Sicília, na Itália e, depois, na invasão da França e da Alemanha.  Competente ao máximo, era também  um poço de vaidade. Durante parte de sua atuação, tinha um superior em Londres,  o general sir Alan Broke,   que certa  vez queixou-se ao  rei Jorge VI: “Acho que o Montgomery anda atrás do meu emprego”.   Resposta do monarca: “Pensei que fosse atrás do meu…”
                                              
A  historinha se conta a propósito de uma pergunta feita na Esplanada dos Ministérios: quem será que busca ocupar as  funções  de comando  do ministro  Antônio Palocci?
                                              
Deve cuidar-se, mesmo, a presidente Dilma Rousseff, pois se o nosso Montgomery  caboclo obtiver sucesso, não se contentará com a chefia da Casa Civil…

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