Socorro médico, limite entre a vida e a morte

Pedro do Coutto

Não surpreende que todas as pesquisas de opinião pública no país apontem a saúde como o principal problema brasileiro. Os debates entre os candidatos têm igualmente acentuado este ponto, de importância essencial para a população. Isso porque, psicologicamente, é natural, todos nós nos sentimos vulneráveis à hipótese de necessitarmos de atendimento urgente diante de um mal súbito, algo inesperado que ressalta a vulnerabilidade do próprio ser humano. O pronto-socorro médico, em inúmeros casos, marca de forma definitiva o limite entre a vida e a morte, portanto entre a existência e a ausência dela.

Algo profundamente sensível, que se reflete na preocupação coletiva. É preciso que o sistema geral de saúde, não só a rede pública, mas a particular também estejam preparados para casos de emergência. Sempre acontecem com freqüência maior do que se pensa. Basta visitar, o que as autoridades públicas deveriam fazer regularmente, as seções de urgência rápida dos hospitais. Quando digo que a preocupação deve abranger todos os serviços médicos, de maneira generalizada, é porque pessoas com a vida em risco muitas vezes não podem escolher o posto mais adequado, porque isso implica em distância e tempo, decisivos para que muitos escapem de crises que começam a se desenhar fatais.

Vejam os leitores o seguinte. Minha mulher, Elena, na tarde de ontem, segunda-feira teve que superar um obstáculo urgente. A senhora que há vários anos trabalha conosco sentiu-se repentinamente mal. Tomada a pressão verificou-se a máxima elevadíssima de 24. Era necessário agir rápido. E Elena agiu, conduzindo-a a uma unidade particular próxima, a Clínica Ipanema, Rua Canning. A distância foi percorrida em poucos minutos, moramos próximo. Muito bem, lá chegando o atendimento não foi prestado. Motivo: a Clínica Ipanema não dispunha de atendimento de emergência. Ponderou-se que era preciso a imediata presença de um médico e não era possível que uma clínica particular não tivesse algum para a bela e por isso mesmo difícil missão de salvar uma vida. Tudo inútil. Nenhum médico poderia ser acionado. Será que naquele momento não havia qualquer médico que pudesse confirmar a pressão arterial e aplicar um remédio que pelo menos proporcionasse o tempo necessário para que a paciente fosse levada a outro hospital? Parece que não.

Graças a Deus, Elena conseguiu um taxi e nossa auxiliar de tanto tempo, por sua vez chegou a tempo em outra clínica do bairro. Foi então medicada, superou a crise e agora vai partir para o tratamento permanente. Esteve no limite. Saiu dele. Mas a Clínica Ipanema demonstrou não estar aparelhada, não apenas para uma urgência, já que não é esta sua especialidade, mas para uma ação que fosse pelo menos humanitária. O episódio marcado pela aflição deixa mais este exemplo da necessidade imperiosa de uma reforma em regra e não só no serviço público, mas na reede particular também. Exagero? Não. Basta ler a lei. Em casos de sofrimento e risco intenso todas as unidades médicas são obrigadas a prestar atendimento. Se este atendimento terá êxito ou não é outro problema, é outro prisma do limite a que me referi no título deste artigo, entre o existir e o desaparecer da vida terrena.

Por dia acontecem milhares de casos no Rio e no país. Quantas pessoas morrem em razão de falta de velocidade para obterem socorro? É por isso que a área médica investe-se de importância fundamental. É indispensável seu reaparelhamento, inclusive de mentalidade. E que todos os que atuam nela assumam para consigo mesmos o sentido maior de sua responsabilidade. Eles também se encontram sujeitos a crises inesperadas. Eles também podem, de uma hora para outra, serem personagens do imprevisto.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *