Sonhos de noite de verão

Carlos Chagas

São quinze os membros do Conselho de Ética do Senado: dez do governo, cinco da oposição. Assim como as quatro representações contra José Sarney e uma contra Renan Calheiros foram arquivadas quarta-feira, as outras seis terão o mesmo destino, hoje, se houver número para os senadores se reunirem,  ou na próxima semana.

Líderes do PSDB e do DEM manifestavam a esperança de que os três representantes do PT poderiam mudar de lado, nessa segunda rodada de blindagem do presidente do Senado, mas é bom que interrompam sonhos de noite de verão em pleno inverno. Os três companheiros são João Pedro, do Amazonas, Ideli Salvati, de Santa Catarina, e Delcídio Amaral, do Mato grosso do Sul.  Todos fechados com o presidente Lula, ou seja, com José Sarney, pelo arquivamento das ações.

Quanto a recursos ao plenário do Conselho de Ética pelos oposicionistas, vale a mesma aritmética. Só por milagre o senador Paulo Duque determinará o início de investigações contra Sarney. Chamuscado, mesmo, poderá sair o líder dos tucanos, Artur Virgílio, contra o qual o PMDB protocolou outra representação.

Não há  hipótese, por isso, de que as acusações venham a ser apreciadas pelo plenário do Senado. Mesmo que novas denúncias e revelações contra Sarney e outros  possam surgir na imprensa, dá-se por encerrado o episódio da tentativa de afastamento do ex-presidente da República de suas atuais funções. Continuará tudo como antes, ou seja, o Senado sem alterações fundamentais em suas estruturas e seu funcionamento e seus dirigentes no exercício de suas funções.

As denúncias? Ora, são recortes de jornal, sem validade alguma no universo das investigações. E quem quiser contribuir para mudanças em nossas instituições só terá uma saída, mesmo assim, preliminar: votar direito nas eleições do ano que vem, esperando que o dr. Ulysses tenha errado em pelo menos um de seus diagnósticos passados. Porque para o saudoso patriarca, todos os Congressos eram piores do que o anterior mas melhores do que o próximo…

Fogueira de vaidades

Como rescaldo da sessão do Senado em que José Sarney apresentou sua defesa, registre-se o que aconteceu logo após a descida da tribuna do ex-presidente da República. A maioria dos líderes sugeriu que os debates continuassem no plenário, adiando-se a reunião do Conselho de Ética. Seria uma forma de os trabalhos continuarem sendo transmitidos pela TV-Senado, aliás, com fortes níveis de audiência. Como alternativa, sugeriu-se o encerramento da sessão, porque só assim as câmeras e os microfones seriam transferidos para o Conselho de Ética, já que pelo regimento da casa a prioridade nas transmissões é para o plenário.

Seria o lógico, mas senadores inscritos para falar depois de Sarney não aceitaram, mesmo que seus discursos nada tivessem a ver com a crise. Queriam aparecer e apareceram, mesmo de forma ridícula, como Roberto Cavalcanti, do PRB, que entoou um canto de amor à cidade de João Pessoa, completando 424 anos de fundação, a capital das acácias. Foram quarenta minutos de recordações sobre a tomada da Paraíba pelos holandeses, a reconquista pelos portugueses e outros episódios sem a menor relação com as palavras de Sarney e possíveis contradições. Seguiram-se outros senadores, abordando a Petrobrás, o Papa, o abandono da Amazônia e sucedâneos. Tudo com direito a aparecer nas telinhas, enquanto no Conselho de Ética, frustrados pela omissão televisiva, as oposições arrefeceram o ânimo de suas críticas às lambanças praticadas pelo senador Paulo Duque, o atual engavetador da República.  A vaidade continua  o  maior dos pecados capitais da política nacional.

Nem se os marcianos vierem

Suponhamos que os marcianos existam e desembarquem por aqui, estacionando seu disco voador da Praça dos Três Poderes. Fotógrafos, cinegrafistas e repórteres credenciados no Congresso correrão para  registrar a visita inusitada, inclusive a meteórica retirada dos alienígenas, certamente escandalizados com o nível dos debates ouvidos através de seus potentes receptores.

A prova de que os marcianos estiveram entre nós, mesmo por fugazes minutos, ficou com os profissionais da comunicação social e seus equipamentos.

Como pela sentença imperial do senador Paulo Duque recortes de jornal não servem de prova para nada, nem imagens televisivas ou gravações radiofônicas, a conclusão será de que os  marcianos devem ser ignorados…

A Bolívia não vai reagir?

O presidente do  Supremo, Gilmar Mendes, não demora a equiparar-se ao presidente Lula em  matéria de inusitados e de improvisos extemporâneos. Enquanto José Sarney fazia sua defesa,  quarta-feira, o meretíssimo pontificava em Belo Horizonte, comparando o Senado à Bolívia. Para ele, a instabilidade dos presidentes do Senado só é comparável ao quadro boliviano, onde os presidentes da República raramente completam seus mandatos, sempre ameaçados   de perdê-los.

A gente  pergunta se  passada a  emoção de seu discurso, José Sarney não vai reagir. Ou nenhum dos ex-presidentes da casa. Quem sabe algum senador capaz de julgar-se ofendido?

O risco é de o embaixador da Bolívia no Brasil, em nome de Evo Morales, protestar alegando que o seu país tem sérios problemas históricos, é verdade, mas ser comparado ao Senado brasileiro, é demais…

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