Sonhos impossíveis?

Carlos Chagas

Primeiro dia do Ano Novo, seria bom parar de lamentar o que passou em troca da projeção do sonho do que poderemos sonhar. Se virar pesadelo, é outra história.

Para começar, que tal imaginar Dilma Rousseff mais amena e tolerante? Afinal, dois anos de uma presidente irascível e irritada talvez tenham sido necessários por conta da herança recebida, mas, se prolongada pela segunda metade de seu mandato, essa postura contaminará de forma definitiva o governo e a sociedade.

De repente, todo mundo se verá de dedo em riste, aos gritos, cada um exigindo submissão dos subordinados e insurgindo-se contra os superiores. O Brasil não é assim, ou não era assim, mesmo devendo-se condenar os dois governos que, com Fernando Henrique e o Lula, deram de ombros para o combate à corrupção e fecharam os olhos para a ineficiência de muitos auxiliares. Porque mesmo insensivelmente, os atuais ministros vão adotando o perfil da chefona. Recebem e repassam reprimendas profundamente exageradas.

Não se fala de empáfia e arrogância, que nem ela nem eles demonstram, mas daquela intransigência que marcou os dois primeiros anos do atual período presidencial. Aguarda-se compreensão, jamais aceitação de erros e malfeitos. Há quem suponha provir dessa inflexibilidade de Dilma os altos índices de sua popularidade até agora conquistados, mas o risco de continuar esse modelo será de estender-se pelo país inteiro, revogando nossa tradicional característica de tolerância e amenidade.

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E O CONGRESSO?

Depois do Executivo, o Congresso. Será possível reverter o secular costume de deputados e senadores agirem primeiro em causa própria, só depois atentando para o interesse nacional? Evidência da importância de mudanças profundas está na falência dos partidos e na predominância das atuais bancadas classistas. Existem os ruralistas e os ambientalistas. Os grupos organizados em torno dos interesses das empreiteiras e aqueles ligados aos sindicatos. Os produtores de petróleo e os sem uma gota do combustível. Os municipalistas e os federalistas. Até os partidários intransigentes do capital estrangeiro e os nacionalistas empedernidos. Há os que sustentam sem restrições os planos de saúde e os que pretendem estatizá-los. Só falta situarem-se em oposição os torcedores do Flamengo e do Coríntians.

Prevalece a falta de programas efetivos dos partidos políticos, todos exatamente iguais em contradições e irmanados em ilusões. De quando em quando uma legenda apregoa o renascimento, mas cada um de seus parlamentares liga-se muito mais a compromissos nem sempre honestos do que a um elenco de princípios acordes com as ideologias diversas.

Que projetos de importância nacional, social, política ou econômica o Congresso votou em 2012? Que campanha desenvolveu em favor das necessidades do país? Que reformas estabeleceu, exceção das periféricas e desnecessárias?

Não que o brasileiro comum sonhe no Ano Novo com alterações de postura do Legislativo. Já nos acostumamos à sua inércia, a ponto de não reagirmos diante de sua mais recente iniciativa: trabalhar das terças-feiras, à tarde, às manhãs de quinta-feira…

Quanto ao Judiciário, boas esperanças. Que continue, em 2013, no rumos definidos até agora. O cronista do futuro não deixará de reconhecer a densidade do julgamento do mensalão, porta de entrada de um ansiado combate à corrupção. Aguarda-se a prisão dos condenados, bem como outras condenações, desde que os juízes da primeira instância e os tribunais consigam desatar o nó da morosidade na aplicação da Justiça para todos, ricos e pobres. Enfim, neste primeiro dia no ano, bons sonhos para todos.

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