Sugestões de convocados para a Comissão da Verdade. Lembram de Tenório Jr.?

Frederico Mendonça de Oliveira

Embora extemporânea e até por isso mesmo um tanto duvidosa, a iniciativa de criar essa Comissão para ouvir os torturadores de mais de 30 anos atrás pode trazer benfícios, vá. Mas seria importante, já que começaram com isso, convocar para depoimentos o pessoal da Operação Condor, gente como os majores Souza Batista e Batista Vieira e ainda um certo capitão Visconti, que torturaram o pianista Tenório Jr. em Buenos Aires por nove dias na Escola Mecânica da Armada, endereço do horror na capital portenha.

Tenório não era militante, nem sabia discernir esquerda de direita. Preso por conveniência e truculência de agentes videlistas, não havendo motivo qualquer senão um estilo de trajar diverso dos argentinos e o fato de estar parado num local onde se daria um encontro entre dois resistentes, foi torturado e depois morto com um tiro de fuzil FAL desferido pelo então tenente da Marinha Alfredo Astiz, responsável também pela morte de duas freiras francesas.

Responde também por essa barbaridade inominável o então conselheiro diplomático Marcos Henrique Camilo Côrtes, filho do general Menezes Côrtes, deputado udenista na década de 50. O conselheiro engavetou o habeas corpus impetrado por Vinícius de Morais – que fazia dupla com o violonista Toquinho, a quem Tenório acompanhava em turnê – e até esteve com Tenório na ESMA, deixando o pianista entregue à própria sorte embora sabendo tratar-se de um inocente.

Tudo isso está relatado no livro “O Crime contra Tenório – Saga e Martírio de um Gênio do Piano Brasileiro”, de minha autoria, e que jamais encontrou uma editora comercial para publicá-lo desde que ficou pronto, em 1997.

A família do pianista vive sérias dificuldades desde o desaparecimento, em março de 1976. O livro, editado precariamente por uma gráfica sul-mineira e praticamente distribuído apenas para amigos e amigos de amigos, pretendia trazer à tona, mesmo já tardiamente, o crime covarde dos videlistas e revelar a colaboração da turma do SNI brasileiro e de um membro de nossa diplomacia com os golpistas que derrubaram o governo constitucional de Evita Perón.

Lá foi criada, imediatamente após a derrocada da ditadura, uma “comissão da verdade”, em 1985, fazendo sentarem no banco dos réus os militares envolvidos no extermínio de algo em torno de 30 mil opositores ao regime de Videla.

Prosseguirá o silêncio sobre o martítio do pianista e ficarão livres os responsáveis por essa que é a maior chaga na história da música brasileira e possivelmente do mundo?

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