Suíça determina sequestro de US$ 100 milhões nas contas da Odebrecht

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Charge do Sponholz (sponholz.arq.br)

Mario Cesar Carvalho e Bela Megale
Folha

A Suíça sempre teve a fama de lavar mais branco o dinheiro sujo da corrupção. Agora o país quer trocar o estigma de complacente com criminosos com o de implacável com desvios. O Ministério Público de lá sequestrou cerca de US$ 100 milhões (R$ 327 milhões) que a Odebrecht tinha em contas secretas usadas para pagar propina no Brasil e em 11 países. O valor será usado para abater a multa de cerca de R$ 700 milhões que a empreiteira e a Braskem, o braço petroquímico do grupo, se comprometeram a pagar no país europeu para encerrar cerca de 60 processos criminais.

A Odebrecht movimentou US$ 212 milhões na Suíça por meio de empresas de fachada entre 2008 e 2014, segundo documentos suíços. Os US$ 100 milhões que ficarão na Suíça superam os US$ 80 milhões bloqueados no escândalo da Fifa.

A Odebrecht reconheceu para as autoridades suíças que lavou dinheiro e não tomou as medidas para evitar que recursos que estavam no sistema bancário de lá fossem usados para pagar propina.

COMPROMISSO – A legislação daquele país obriga toda empresa que abre conta a se comprometer que tomará as medidas para evitar o pagamento de suborno. O acordo com as autoridades suíças foi assinado na quarta (21), mesmo dia em que o grupo selou negociação com autoridades dos EUA.

O acerto com a Suíça fala em compensação de fundos, mas não cita o valor de cerca de US$ 100 milhões, apurado pela Folha com pessoas que participaram da negociação.

O acordo da Odebrecht e da Braskem com Brasil, EUA e Suíça é considerado o maior do mundo, ao estipular uma multa de R$ 6,9 bilhões a ser paga em 23 anos. No final desse período, com a inclusão de juros, o valor deve chegar a R$ 11,4 bilhões (ou US$ 3,5 bilhões). Até então o maior acerto desse tipo havia sido selado pela Siemens com autoridades americanas e europeias, com multa de US$ 1,6 bilhão.

PAGAMENTO IMEDIATO – Enquanto a Odebrecht conseguiu um prazo de 23 anos para pagar a indenização ao governo dos EUA, para evitar que o grupo quebre, a Suíça receberá praticamente a metade da multa em uma parcela. Os valores estavam bloqueados pelos procuradores suíços desde 2014, quando as autoridades de lá passaram a cooperar com a Lava Jato.

A Suíça foi para a Odebrecht o que a batalha de Waterloo significou para Napoleão Bonaparte (1769-1821): o maior marco na derrocada. A estratégia da empreiteira de negar o pagamento de suborno e acusar a Lava Jato de cometer abusos e acusações infundadas foi minada com a delação do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, em meados de 2014. Ele contou que recebera US$ 23 milhões da Odebrecht na Suíça para beneficiar a empresa em contratos com a Petrobras e Braskem. Costa foi o primeiro delator da Lava Jato.

Com a vinda da documentação suíça ao Brasil, por meio de um acordo de cooperação internacional, os procuradores da Lava Jato descobriram que a Odebrecht mantinha uma rede de empresas fantasmas em paraísos fiscais que usavam contas na Suíça para pagar propina a políticos e funcionários públicos.

ACORDOS DE DELAÇÃO – Com o acúmulo de provas, Odebrecht e Braskem começaram em março deste ano a negociar acordos de delação, concluídos em 1º de dezembro. A teia de contas e a cascata de delações mostraram que a Odebrecht usava a Suíça para pagar suborno a políticos e outros diretores da Petrobras, como Renato Duque, Jorge Zelada e o ex-gerente Pedro Barusco.

Um dos políticos acusados de receber recursos na Suíça é o chanceler José Serra (PSDB-SP), o que ele nega. Segundo delatores, a Odebrecht depositou R$ 23 milhões em contas de amigos dele na Suíça, entre eles o ex-banqueiro Ronaldo Cesar Coelho, que chegou a atuar como tesoureiro de campanhas do PSDB.

Mesmo para os padrões suíços, a Lava Jato é considerada o maior escândalo já ocorrido em bancos de lá. Autoridades bloquearam US$ 800 milhões ligados à apuração brasileira. É um recorde mesmo para os padrões de ditadores, como Ferdinando Marcos, das Filipinas (US$ 650 milhões em valores atuais) e Sani Abacha da Nigéria (US$ 620 milhões).

OUTRO LADO – A Odebrecht não quis comentar a decisão suíça. Em comunicado enviado na última quarta (21), quando assinou os acordos com os EUA e Suíça, a empresa afirmou: “A Odebrecht se arrepende profundamente da sua participação nas condutas que levaram a este acordo e pede desculpas por violar os seus próprios princípios de honestidade e ética”.

A empresa disse que assume “o compromisso com práticas empresariais éticas e de promoção da transparência em todas as suas ações”.

No mesmo dia, a Braskem afirmou que “reconhece a sua responsabilidade pelos atos de seus ex-integrantes e agentes e lamenta quaisquer condutas passadas”.

2 thoughts on “Suíça determina sequestro de US$ 100 milhões nas contas da Odebrecht

  1. Simplesmente não entra na minha cabeça a idéia que uma organização criminosa como a ODEBRECHT continuará a existir impunemente simplesmente pagando umas “multinhas” e apresentando pedidos rasgados de desculpas.
    Essa organização criminosa deveria no minimo perder as condições de continuar existindo com o mesmo controle acionário de uma familia nefasta que há decadas só vem dilapidando os suados recursos públicos de contribuintes(pagadores de impostos) que vivem sendo extorquidos pelo poder público.
    São bandidos que deveriam estar atrás das grades e não no comando da maior empresa, digo, organização criminosa do país.
    Pode até ser verdade que exista sim um interesse imperialista americano de que essa empresa gigantesca deixe de ser brasileira e passe ao controle de estrangeiros. Mas isso também não significa que nós, os “otários” pagadores de impostos(não contribuintes como sempre grita o marketing governamental) tenhamos que continuar sustentando esses criminosos para defender os “interesses patrióticos”. Aliás esse é o mesmo argumento usado pelos irmãos Castro em Cuba para manter uma ditadura feroz há mais de 5 décadas.
    Aliás em toda essa “palhaçada” de pedidos de desculpas, não vemos sequer uma proposta de mudanças nos sistemas de licitação em obras públicas.A principal delas seria a criação uma seguradora de obras públicas, nos moldes do que defende o professor Carvalhosa, seguradora essa que se responsabilizaria por uma garantia de que uma obra pública seria entregue sempre nos prazos e condições de qualidade acordados e orçamentados, sem os atuais aditivos abusivos que elevam os custos de maneiras absurdas. Esse sistema já funciona nos EUA desde o século XIX, país onde a ODEBRECHT também presta serviços e com certeza não comete os abusos que faz aqui e em outros países ditatoriais aonde a propina come solta.
    Vou mais longe, e afirmo que na verdade essa e outras empresas criminosas é quem controlam e extorquem os políticos e não o contrário. Se houver politico (presidente, governadores, prefeitos, senadores e deputados) dispostos a não aceitar os desmandos desses empreiteiros criminosos, simplesmente fica com suas campanhas e sobrevivência politica praticamente inviabilizados. Simplesmente somem do cenário politico ou passarão a se manter totalmente apagados. Temos um exemplo disso com o Senador Pedro Simon ou mesmo com Itamar Franco que chegou de uma maneira acidental à presidencia da República, mas nunca mais voltou a ter um protagonismo forte por nunca foi de fazer conchavos e negociatas com essa gente. Inclusive foi tachado de “louco”! quando governou Minas Gerais entre 1999 e 2002, vencendo o “impoluto” Azeredo que só não foi preso por causa de chicanas jurídicas.
    Concluindo, sempre as elas, ODEBRECHT e outras empreiteiras e grandes concessionários de serviços públicos corrompendo a politica e os governos. ATÉ QUANDO?

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