Sujou o ouro de Moscou

Sebastião Nery

Nos dias 9 e 10 de fevereiro de 2005, denunciei aqui (“O Ouro Sujo de Moscou”, 1 e 2), pela primeira vez, a presença, em São Paulo, de um estranho senhor de menos de 40 anos, playboy, gravata de nó grosso, olhos esbugalhados, pinta de aventureiro internacional, com cinco certidões de nascimento, três do Canadá e duas da Inglaterra. O que ele queria no Brasil?

Chegava para arrendar e assumir o Corinthians e, se possível, o Flamengo. Com que dinheiro? A história começava em Moscou. Em 99, o iraniano Kia Joorabchian tinha aparecido na Rússia e comprado o Kommersant, o mais importante jornal econômico financeiro do País. Os russos não sabiam quem ele era. O pai tinha dirigido a maior fábrica de automóveis do Irã. Quando o aiatolá Komeini derrubou o Xá Reza Parlevi, em 79, a família fugiu para a Inglaterra e Kia foi especular na bolsa de Nova York.

Logo depois de comprar o Kommersant, Joorabchian passou-o para o magnata russo Boris Berezovski. Ele estava a serviço da máfia rússia.

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MÁFIA RUSSA

Berezovski era um dos quatro chefes da máfia russa, poderosos e íntimos de Boris Yeltsin, que, já no fim de seu alcóolico e desastrado primeiro mandato, querendo “fazer caixa” para reeleger-se em 96, doou-lhes, em troca de migalhas (como Fernando Henrique, no Brasil), as grandes e riquíssimas estatais do País: Mikhail Khodorkovski ganhou a Yukos de petróleo, Roman Abramovich e Boris Berezovski ganharam a Sibneft, do petróleo siberiano, e Pastarkatsishvilkli ganhou a energia eletrica da Georgia.

Saiu Yeltsin, veio Putin, retomou para o País as grandes estatais, processou e prendeu Khordokovski, enquanto Abramovich, Pastarkatsiswhvilli e Berezovski eram condenados e fugiam para a Inglaterra, levando bilhões.

E Berezovski mandou para o Brasil seu testa-deferro Joorabchian, atrás de uma empresa de fachada, a MSI, para iniciar comprando o Corinthians.

E logo depois o escândalo começou a estourar.
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DIRCEU

O Corinthians virou uma casa da mãe Joana, ninguém mais se entendia. O Kia assumiu o time, os “investimentos” que prometeu não apareciam, lavavam dinheiro trazendo jogadores da Argentina que diziam ter custado milhões de dólares e a Polícia Federal e o Ministério Público abriram o olho.

Mas o jogo deles ia bem além do Corinthians. Chegaram logo a José Dirceu, o grande “consultor” (vulgo intermediário, lobista), mesmo ainda no governo. O segundo assalto de Berezovski e Kia era à Varig. O governo Lula começou a tirar o tapete da Varig, que foi afundando sabotada, com a ajuda, como sempre, de uma bem azeitada campanha da “grande imprensa sadia”.

E Berezovski apareceu no Brasil. Dia 6 de maio de 2006, nos jornais:

– “Berezovski é detido em investigação sobre MSI” (Estado de S. Paulo).

– “Berezovski é detido em Cumbica para prestar depoimento” (Folha).

– “Empresário russo interessado na Varig causou mal estar ao governo” (Diário de São Paulo).

Do aeroporto, Boris voltou para Londres. Dirceu era e é poderoso.

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PRISÕES

Em 2007, saía a notícia, resultado do belo trabalho da Polícia Federal e do Ministério Público:

– “O juiz Fausto Martin de Sanctis, da 6ª Vara em São Paulo, determinou as prisões de Kia Joorabchian e Boris Berezovski. Já o presidente do Corinthians Alberto Dualib foi denunciado por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Kia e Boris não estão no Brasil”. (Blog Uol).

O Lance, de 13 de julho de 2007, revelou uma série de “trechos de escutas telefônicas feitas pelo Ministério Público Federal e que envolvem vários personagens do Corinthians, do MSI – Todos os trechos constam do relatório da Polícia Federal divulgado pela Justiça Federal”. Apenas alguns:

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GRAMPOS

– “21.01.2007 – Renato Duprat revela intenção de Boris na aquisição de oito estações de televisão, estando pronto para viajar ao Brasil, devendo, para tanto, ser acelerado o processo” (sic).

– “13.2.2007 – Fala-se sobre a eventual vinda de Boris ao Brasil, que teria tirado Kia e que talvez mudaria o nome da MSI e que somente mandaria dinheiro ao Brasil, inclusive para investir em biodisel, depois de tudo correto”

– “14.2.2007 – Dualib deixa recado para o chefe de gabinete do presidente da República, Gilberto Carvalho, afirmando a necessidade de antecipar a audiência (sic) com Boris e Lula”.

– “16.5.2007 – HNI fala que conversou com o governo, que lhe teria pedido para aguardar a vinda de Boris, senão o cara vai em cana, devendo a questão ter encaminhamento jurídico do pedido de asilo político”.

– “22.5.2007 – Alberto Dualib fala a Kalil que Renato Duprat Filho está trabalhando o Lula e o Zé Dirceu por meio do Genoíno lá no negócio da Bahia, qualificando como trambique”.

Como estamos no Carnaval, “recordar é viver”, como diz 0 célebre samba de Aldacir Marins e Macedo, sucesso desde 1955.

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