Sutilezas (ou desacerto mesmo?) entre Dilma e Lula. Ela quer que ele compreenda que já foi eleita, é presidente. Ele diz que isso só em 2011. PMDB e PT, empurram os dois para o despenhadeiro.

Helio Fernandes

Pode ser o jogo do Poder, a coisa mais natural do mundo. Eleita, (não importa que sem ele não tiraria nem segundo) quer exercer o cargo, esperar a partir de hoje, mais 47 dias? É muito. Grande eleitor, Lula quer exercer o Poder até o fim, que espera que não seja amargo nem reduzido.

As divergências são até naturais, não espero que resultem em autodestruição, como exemplos do passado. Carvalho Pinto, Lucas Nogueira Garcez, Miguel Couto, assim que assumiram, “desinventaram seus inventores”, passaram a ter autonomia de voo, por conta própria.

No momento, tudo se resume a questões circunstanciais, que podem ser resolvidas. Nomeações (contestadas) de ministros. Últimas decisões que Lula quer tomar, Dilma gostaria que deixasse para ela. Vou mostrar algumas, apenas algumas.

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O DISCURSO NO G-20

Quando se aproximava a hora do presidente falar, ele mandou pedir a Dilma para não ficar no plenário, “seriam dois presidentes”. Era compreensível de sua parte? Parece. Ela se ausentou, era compreensível? Parece.

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LULA CHAMOU MANTEGA

Dona Dilma já declarou, “quero controlar a economia, nesse setor vou decidir sempre”. Isso foi entendido como quase garantia de manutenção do ministro. Sem voz ou presença, Mantega ficaria como uma espécie de “boneco de ventríloquo” da presidente. Lula deu voz e relevo a Mantega, contrariou os planos de Dilma.

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O VETO E O CHANCELER

Era público e notório (eu mesmo revelei aqui, antes da eleição presidencial) que Amorim pretendia ficar mais um ano como chanceler, e passar o cargo para o embaixador Antonio Patriota, o único diplomata citado até agora. Pela análise, o veto a Amorim serve mais a Dilma do que a Lula.

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UM “CIVIL” NO ITAMARATY

O desprestígio de Amorim, que ficou evidente com o veto, provocou um “jogo de dominó” na Chancelaria. Se ele é “desconvidado” para ficar ao lado de Lula (posição que ocupou com cadeira cativa durante 8 anos), como teria força para indicar alguém?

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A MÃO DE DONA DILMA

Como não conhece nenhum diplomata, e como quer mandar em tudo, (nada contra), estava constrangida e contrariada com a obrigação de “assumir” o ministro de 8 anos. Só que agora, com os diplomatas descartados, vão aparecer vários parlamentares como candidatos ao Itamaraty. Dona Dilma vai compreender que o veto a Amorim não facilitou nada.

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MINISTRO DO SUPREMO

Depois dos dois empates de 5 a 5, quando ficou pública a divisão no mais alto tribunal do país, insistem (sem a menor base) que isso aconteceu por faltar um ministro no Supremo. (Não foi preenchida a vaga de Eros Grau).

Lula queria nomear imediatamente Asfor Rocha, do STJ. Vetado por unanimidade por não conseguir resposta para sequer uma letra do ABECEDÁRIO de irregularidades que é a sua vida de “magistrado”, surgiu e se consolidou o impasse e o vazio no Supremo.

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DILMA FARÁ A NOMEAÇÃO

Com seu candidato vetado por u-n-a-n-i-m-i-d-a-d-e, Lula ficou sem nome e sem tempo. O Senado não terá número até 31 de janeiro, quando os senadores tomam posse. Como escolher, agradar, indicar, aprovar e nomear um ministro para o Supremo, nessas condições?

Tendo pedido a Lula, “deixe a nomeação para mim , já começarei afirmativamente”, Lula terá que “conceder”, sem o menor entusiasmo.

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PRESIDÊNCIA DO SENADO

O candidato de Lula é Sarney, não é o de Dilma e dos outros senadores. Como já revelei, existem vários candidatos que dizem, “se não me escolherem, não quero que seja o Sarney”.

Quase maquiavélico, embora não saiba de onde deriva a palavra, o alagoano Renan Calheiros se lançou à cúpula do Senado, com esta declaração: “Meu candidato a presidente do Senado é Sarney”. Bestial, pá,

Sabendo que Dona Dilma não quer um ex-presidente comandando o Senado, Calheiros sabe que será o herdeiro, pode dizer, “meu filho, mais tarde tudo isso será teu”.

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COMEÇOU A RESTRIÇÃO A TEMER

Essa “brecha” por onde Calheiros se infiltrou, tem a ver com a arrogância e pretensão do vice-presidente, que pretende ou pretendia mandar em tudo. Renan pode ter todos os defeitos (e alguns tem mesmo), mas não o da subserviência. Com ele na presidência, Dilma pode ficar tranqüila.

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MOREIRA FRANCO ESTÁ AMEAÇADO

Era tido e havido como presidente da Caixa Econômica, (agora em grande evidência pela imprudência de cumprir ordens de Lula, através do Banco Central, de ajudar o falido Grupo SS).

Moreira, extraordinário articulador, está na vitrine desde 1982, quando quase ganhou de Brizola, com apoio da Globo e da Proconsult. Mas se elegeu governador em 1986.

Tão ligado a Michel Temer que é tido como seu conselheiro. Candidato a senador na vaga errada (apenas uma, 1998), foi conselheiro do presidente FHC. Agora, os lobistas do PMDB dizem: “Não pode ser presidente da Caixa, não tem mandato”. Ha!Ha!Ha!

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MEDO DE DILMA: A CONTA DO PT

Está esperando, lógico, não tem pressa. O próprio ex-chefe da Casa Civil, José Dirceu, não esconde: “Sem o nosso PT, Dilma não governa”. Ela não sabe muita coisa, mas disso não tem dúvida.

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PS –  Formar um governo é sempre difícil, principalmente num sistema pluripartidário com 513 deputados e 81 senadores;

PS2 – Não adianta Dona Dilma dizer: “Temos maioria na Câmara e no Senado”. A declaração está errada. A certa: “Elegemos mais deputados e mais senadores”. Isso foi na eleição, precisa ser ratificado agora.

PS3 – Na Primeira República, durante 41 anos, governadores, senadores, deputados, tinham que ser RATIFICADOS por uma Comissão especial.

PS4 – Agora, se elegem, mas só passam a valer de verdade, pela recompensa que recebem em cargos. O leilão está começando. Quem é o leiloeiro? Dilma ou Lula?

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