Tá legal, eu aceito o argumento, mas não me altere o samba tanto assim…

Paulinho da Viola, retratado por Lan

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor carioca Paulo César Batista de Faria, o Paulinho da Viola, é tido como um dos mais talentosos representantes da MPB. A letra de “Argumento” é um protesto contra a inclusão do piano nos sambas, que Benito de Paula colocava, naquela época, em que os sambistas clássicos não aceitavam a falta dos instrumentos essenciais, como cavaco, pandeiro e tamborim. Este samba, com várias gravações, faz parte do CD Meus Momentos, de Paulinho da Viola, gravado em 1999.

ARGUMENTO
Paulinho da Viola

Tá legal
Tá legal, eu aceito o argumento
Mas não me altere o samba tanto assim
Olha que a rapaziada está sentindo a falta
De um cavaco, de um pandeiro ou de um tamborim

Sem preconceito ou mania de passado
Sem querer ficar do lado de quem não quer navegar

Faça como um velho marinheiro
Que durante o nevoeiro
Leva o barco devagar

3 thoughts on “Tá legal, eu aceito o argumento, mas não me altere o samba tanto assim…

  1. CN, desculpe postar fora do contexto, mas tem dia que a coisa fica muito pesada e dá vontade de pegar mais leve. Essa melodia de agora mostra isso.
    É um papo do Jabor com o Nelson Rodrigues que publiquei na minha página do Face, anos atrás.

    James Pimenta
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    Compartilhado com Seus amigos
    Este artigo do Arnaldo Jabor conversando com o Nelson Rodrigues serve para os comunistas e socialistas que ainda não desconfiaram quem são os canalhas. Hehehe, segundo Nelson o maior canalha teria sido o Palhares, o cara que queria comer a cunhada. Teria Sido.
    Arnaldo Jabor – O Estado de S.Paulo
    Depois de muito tempo, falei ontem com Nelson Rodrigues no velho telefone preto que ele atende lá no céu, entre nuvens de algodão e estrelas de purpurina. Ele riu ao telefone:
    – Você só me liga quando está em crise? A crise é tua ou do País?
    – Nelson, eu sou parte dos detritos da nação…
    – Não faz frase, rapaz, olha a pose… Este momento do País é maravilhoso: o Brasil está assumindo a própria miséria, a própria lepra… Os brasileiros deviam se agachar no meio-fio e beber dessa sagrada lama que apareceu, com o ‘negão’ bisneto de escravos abolindo a corrupção… Ali está a salvação. Finalmente, os marxistas de galinheiro estão aparecendo no relatório do STF. É impressionante ver as trapalhadas que fizeram; achavam que ninguém estava vendo. Eles são parte dos cretinos fundamentais que infestam o País e se escondem sob a capa da ‘revolução’. Antigamente, o cretino se escondia pelos cantos, envergonhado da própria sombra; hoje, se você subir num caixotinho de querosene “Jacaré” e falar “meu povo”, eles formam uma multidão de Fla x Flus. Você pegue o Prestes, por exemplo; ele só fez errar na vida. Tudo que ele quis deu zebra, de 1935 até o fim… No entanto, quem falar mal do Prestes leva um dedo na cara: “Não admito, ouviu?!” Durante 30 anos organizaram um partido e chamaram os intelectuais, que fizeram um carnaval danado, transformando o Lula num “Padim Ciço”. Mas, quando chegaram ao poder, debaixo de papel picado, resolveram se suicidar como as virgens do meu tempo: ateando fogo às vestes. Daí, a verdade inapelável: os comunistas odeiam governar; só querem ‘tomar’ o poder para entrar nas boquinhas, com a mentira de serem ‘socialistas’. Eles acham a democracia uma vigarice burguesa para enganar as massas.
    – Mas… Nelson… o proletariado sob o capitalismo…
    – Para com isso, rapaz; o Homem é capitalista… Existe mercado desde o tempo dos macacos disputando minhocas no buraco… Só os cegos acreditam na “utopia” e só os profetas enxergam o óbvio. O óbvio é um Pão de Açúcar que ninguém vê. E o óbvio é que os petistas queriam fazer a “revolução” com o mensalão, ali na cara do Lula. Mas, foram mexer com a única coisa proibida: com o canalha brasileiro. O canalha é um patrimônio da nacionalidade. Desde Tomé de Souza que roubam sem parar. Pois os canalhas estavam quietos, metendo as mãos nas cumbucas do Estado, quando de repente apareceu o Zé Dirceu, achando que ia passar-lhes a perna. Os canalhas olharam maravilhados aquela burrice dos petistas e sacaram na hora: “Esses comunas acham que a gente é babaca? É tudo mané!…” Dirceu prometia grana, mas não pagava na hora, humilhando a gangue aliada. Eles piscavam cinicamente uns para os outros, contendo o riso e preparando o bote: “Perfeitamente, camarada Dirceu…”
    – Você acha o que do Dirceu?
    – Ele me fascina. Eu o conheci em 67, por aí… Ele vivia atracado em postes, como vira-latas… Explico: o Dirceu não podia ver um poste que ele trepava em cima e escrachava o capitalismo. Você sabe que os comunas tratam o capitalismo como uma pessoa: “Hoje o capitalismo acordou de mau humor, o capitalismo tem de morrer!!!” Eles falam no tal do “neoliberalismo” como se os grandes empresários de cartola tivessem resolvido: “Vamos fundar este neoliberalismo para acabar com aqueles trouxas!” Acham que a IBM, a Coca-Cola e a GM estão dando gargalhadas de bruxa de peça infantil. A velha esquerda não entendeu até hoje a grande lição de Marx: quem manda são as mercadorias, quem manda é a salsicha. Ninguém controla o Mercado. Aliás, o Marx está ali numa nuvem, exalando cava depressão.
    Bem, como eu ia dizendo, o Dirceu vivia trepado em postes, falando da “utopia”, que ninguém sabia o que era. Alguns sujeitos rosnavam: “Quem é essa tal de Utopia? É a mulher dele?” Pois um dia o nosso Dirceu encontrou o Lula. Foi uma festa. O Lula era o “robô” perfeito para os petistas intelectuais: operário, foice e martelo, barba e sem dedo – tinha tudo para se tornar um símbolo de santidade, um messias da USP, onde as professoras se estapeavam para pegar um autógrafo do “proletário”. Os bolchevistas, desempregados desde 68, se deram bem quando Lula chegou ao poder: “Vamos desapropriar a grana desse Estado burguês para conquistar nossos objetivos populares”. Aí, apareceu o Dirceu esfregando as mãos: “Oba!… Deixa comigo, Lula!” E virou ‘primeiro-ministro’. O Lula achou ótimo porque estava em fremente lua de mel consigo mesmo, segredando para dona Marisa: “Ei, mãezinha, quem diria nós aqui, hein…?” E nem ligava: “Deixa que o Dirceu resolve!” E ia beijar rainhas e reis, lambido pelos grã-finos internacionais.
    Foi aí que surgiu o Jefferson, denunciando o comandante da “revolução corrupta”. Jefferson saiu da mentira para a verdade e o Dirceu da “verdade” para a mentira. Um é o espelho invertido do outro. O Jefferson e Dirceu são a essência do Teatro: protagonista e antagonista. A maior peça do teatro brasileiro foi o duelo dos dois na Câmara. O País parou como no Brasil x Uruguai.
    Os dois juntos levantaram a cortina do erro brasileiro. O Jefferson, que tinha passado a vida escondido na própria gordura, se esgueirando por estatais e fundos de pensão, descobriu a deliciosa alegria do sucesso. Ninguém foi mais feliz que o Jefferson naqueles dias, espojando-se na verdade, regozijando-se no papel de herói ao avesso, abrindo o alçapão de ratos…
    E Dirceu se deu bem também, apesar da condenação no STF. Ele ficou livre de sua ‘revolução’ fracassada, finalmente no ansiado martírio, o único sossego dos paranoicos.
    Jefferson fez o maior tratado de sociologia política da vida nacional e Dirceu fez uma revolução inesperada – queria um socialismo stalinista e acabou fortalecendo a democracia.
    – Mas, Nelson, qual será o futuro disso tudo?
    – Não há mais futuro, rapaz… Mas, garanto que um dia Jeff e Zé terão uma estátua em bronze – os dois sob os braços de uma grande deusa nua: a República celebrando seus heróis. Rapaz, isso é o óbvio: Dirceu e Jefferson salvaram o Brasil!
    E desligou.

  2. Texto maravilhoso, retrato do nosso Brasilzão. A história contada ao avesso. Há controvérsias, mas a quem interessa.
    Um palco, uma platéia, um camarim, uma coxia. Luzes, ação, o teatro está funcionando, e recebendo o público fiel aos princípios republicanos, ou não

  3. O comportamento humano visto de vários prismas serve como meu deleite, principalmente as sátiras.
    Eu li, não lembro onde, Paulo Francis pego de surpresa quando foi para viver nos Estados Unidos, as reflexões dele tiram o lugar comum das pessoas que bitoladas num sistema só enxergam num ponto perdendo na totalidade a visão periférica.

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