Tanatus, o impulso destrutivo, a grande descoberta de Freud

Pedro do Coutto

Somente uma psicopatia profunda, e no caso macabra, inspirada na figura de Tanatus, da mitologia Grega, a maior descoberta de Freud em sua obra monumental, poderá traduzir, não explicar, o universo interior do assassino Welington Menezes de Oliveira que, pelos crimes em série praticados contra crianças e adolescentes na Escola Tasso da Silveira, traumatizou a todos.

E até abalou o próprio país pela crueldade e absurdo. Um fundamentalista, falso religioso, dentro de sua mente doentia criou um culto e um altar a si mesmo. Não fosse a bravura e ação rápida e firme do sargento Marcio Alves, da PMRJ, as proporções da tragédia seriam ainda maiores.

O hediondo episódio foi destaque em todos os grandes jornais do mundo. Sua dimensão foi terrível. Ficará eternamente na história da criminalidade e dos assassinos seriais. Não morresse nas escadas de Realengo, mais vítimas inocentes estariam em seu caminho.

Por que cito Freud? Porque foi o gênio de Viena, no final do século 19 que, ao aprofundar a psicanálise, foi buscar exemplos sólidos na mitologia da Grécia antiga em busca de definir comportamentos humanos a partir do passado, colocando-os no comportamento do ser humano. Eros e Tanatus foi um notável ensaio de Sigmund Freud colocado adicionalmente a uma das obras da coleção de 22 volumes que legou ao universo, chamada Além do Princípio do Prazer.

Eros representava a divindade do amor, do sexo, da vontade construtiva, objeto de cultos exaltando tais qualidades, séculos antes do nascimento de Jesus. Na mesma época remota dos tempos, Tanatus ou Thanatos, era o deus da morte, da destruição, o filho da noite. Talvez na época, não tenho certeza, noite poderia ser sinônimo de trevas no contexto mitológico. Neste caso, encontrar-se-ia uma semelhança com o filho da escuridão, fazendo sua figura convergir com a do demônio, anjo decaído, expulso da história, mas nela mantendo eterna presença como símbolo do mal.

Freud mergulhou na alma humana e, ao longo de sua vida, morreu em 1939 aos 87 anos de idade, foi de descoberta em descoberta, passo a passo desvendando e iluminando faces ocultas da espécie. Em si um mistério milenar. Mistério inclusive expressado na fé. Logo, o mistério existe e é realçado todos dias sem que nós o percebamos nítida e diretamente. A frase fica na penumbra.

Freud, que deu sequência às experiências hipnóticas e teatrais de Charcot, trouxe o esforço de compreensão da alma humana para o universo da linguagem clara, direta, não impressionista. Mas, homem culto e erudito, não limitado somente à  Medicina, foi buscar na arte e na História exemplos que incorporou ao tempo de sua época. Alguns exemplos ficaram para sempre. Como Eros e Tanatus. Outros, como Édipo, de Sófocles, tragédia grega também, foram revisados através das décadas. Electra, por exemplo. Édipo inclusive, pelo próprio Freud.

Mas a imagem de Tanatus é fortíssima. Continua a mesma. Traduz tanto as exacerbações que culminam com assassinatos, como os da Escola Tasso da Silveira, como comportamentos não criminosos, porém extremamente  prejudiciais. O Tanatus nasce de uma rejeição humilhante a si mesmo e leva ao impulso de destruir a personalidade e a existência dos outros. Para os que vivem em Tanatus, como se fosse um planeta, o êxito e o brilho dos outros incomoda. É um sofrimento. Ao longo da vida conheci vários assim. Conheci não, conheço. Aliás quem não conhece? Os assassinos são raros. Os recalcados  muitos. Aparecem a toda hora.

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