Tancredo: a alvorada democrática que encerrou a ditadura militar

Pedro do Coutto

Por iniciativa de nossa filha Tatiana, cientista política que há poucos dias estreou neste site, eu e Elena fomos assistir domingo ao documentário “Tancredo Uma Travessia”, do cineasta Sílvio Tendler, a partir de roteiro traçado pelo jornalista e historiador José Augusto Ribeiro.Com quem trabalhei quando ele dirigiu, primeiro a redação do Correio da Manhã, e depois foi vice de Evandro Carlos de Andrade em O Globo.

Emocionante. O filme é magnífico e, no final da sessão a platéia aplaudiu demoradamente de pé. Lembrei-me de “O Grande Ditador”, de Charles Chaplin, em 41, que assisti ao lado do historiador Pedro do Coutto, meu avô, o primeiro a se levantar para aplaudir a mensagem contra o nazismo de Hitler contida na obra. Cinema Carioca, Praça Saenz Pena. Passaram-se 70 anos.

“A Travessia” de Tendler e José Augusto não foi, a rigor, só de Tancredo Neves. Pertence para sempre à história do Brasil como a realização imortal de Chaplin, à memória universal. Vai se eternizar nas galerias das cinematecas, na consciência e no coração dos contemporâneos. Esperemos que também no coração e na consciência daqueles, como definiu Bertold Brecht, que vierem depois de nós.

Um documento político fantástico, incluindo depoimentos de pessoas vivas, pois a história também é o presente. Além disso, ela, a história, mutável à luz das interpretações agudas que atualizam e levam a redescobertas. No filme não faltou a adição (e a edição) do belíssimo poema de Ferreira Gullar, cujos versos flutuam ao lado das rimas do Hino nacional. Gullar o produziu na morte do presidente eleito que, assumindo dimensão sheaksperiana, não assumiu o poder pelo qual lutou  e, no fundo, sempre sonhou. Reunia em si todas as condições para este sonho.

Uma das sequências mais altas e, ao mesmo tempo mais profundas do filme, refere-se à análise feita pelo próprio personagem principal quando aborda o covarde e imundo atentado do Riocentro em março de 81. Não vou usar o termo aula porque seria diminuir a importância do ensaio político. Tancredo Neves, ao comentar o episódio, sustentou que sua elucidação seria fácil se o caso exigisse somente o caráter de uma investigação policial militar. Mas não era apenas isso. Sua tradução era muitíssimo mais ampla. De fato, a bomba que matou o sargento Manoel Rosário e feriu gravemente o hoje coronel da reserva Wilson Machado explodiu no sistema nervoso do próprio militar. E abriu uma contradição insuperável. Sem dúvida. Tancredo acertou plenamente o alvo.

Porque se o terrorismo, que é essencialmente ação contra o governo formado, em qualquer país do mundo, transforma-se em manifestação de uma dissidência contra esse mesmo poder, fica evidente o seu fracionamento. Já tinha ocorrido o fenômeno, poucos dias antes, quando um grupo a serviço do terror de extrema direita detonou as rotativas da Tribuna da Imprensa e incendiou o prédio da Rua do Lavradio. As máquinas voaram pelos ares. Os autores estão ocultos e não descobertos até hoje, trinta anos depois. Mas uma base do poder militar desmoronou com os dois atentados.

No roteiro de José Augusto Ribeiro, o filme de Silvio Tendler expõe as manchetes do jornal Tribuna da Imprensa, sobretudo na crise que culminou com a morte do presidente Getulio Vargas e também no movimento político-militar que derrubou, pela força, o governo João Goulart.

 Tancredo Neves escolheu o momento certo para a travessia. Primeiro a ponte para as eleições diretas. Não saíram em 84. Porém a travessia criou as condições para sua vitória no voto indireto. Vamos ao colégio eleitoral para destruí-lo, afirmou na campanha das ruas. E assim aconteceu. Da mesma forma que o atentado de 44 contra Hitler, coordenado pelo Cel. Von Klauss, decretou o começo do fim do nazismo, as bombas da Tribuna da Imprensa e do Riocentro descortinaram a estrada para a bela jornada de um herói que devolveu a democracia ao país.

Reconhecimento eterno a ele.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *