Taxar grandes fortunas: Obama deve se lembrar do fracasso de McGovern

Pedro do Coutto

Reportagem de Ed Pilkington, correspondente do jornal inglês The Guardian em Nova Iorque, transcrita pela Folha de São Paulo na edição de segunda-feira, revelou que o diretor de Orçamento da Casa Branca, Jack Lew, entrevistado domingo por uma rede de televisão, afirmou que o projeto de taxação sobre grandes fortunas terá de estar sobre a mesa de negociações entre Democratas e Republicanos em torno da elevação da dívida interna dos EUA além dos atuais 14,3 trilhões de dólares. A matéria saiu ao lado de belíssima foto da Secretária de Estado, Hilary Clinton em Atenhas observando com expressiva atenção escultura grega anterior à era cristã. Esta foto, creio, por sua beleza plástica, deveria ter ido para a primeira página. Mas este é outro assunto.

Taxar fortemente os ricos, sobretudo num país em que sobre eles desabam 50% de Imposto de Renda, na realidade é um exagero. Tema também para primeira página do New York Times e do Washington Post, por exemplo, além do Chicago Tribune. O reflexo eleitoral de tal assunto é enorme. Barack Obama tinha apenas onze anos de idade, em 72, mas os estrategistas do Partido Democrata devem alertá-lo de que esta foi a principal plataforma do senador George McGovern, candidato da mesma legenda, arrasado nas urnas pelo Republicano Richard Nixon, buscando então a reeleição.

Em 68, Nixon derrotou Hubert Humprhey pela diferença de um ponto, apenas conquistado em duro desfecho em Illinois. Quatro anos se passaram e McGovern, senador por Massachussets, resolveu encampar a tese, apontando as baterias tributárias contra os mais ricos. Foi um desastre. Dos 50 estados americanos, somente venceu no seu. Perdeu, sem exceção, em todos os outros 49. Incluindo até Nova Iorque, fortíssimo reduto Democrata. Obama era uma criança nessa eleição. Mas muitos integrantes de seu partido hão de ter o episódio na memória.

Sobretudo porque a de McGovern tornou-se a maior derrota democrata de todos os tempos. Não chegou a trinta por cento dos votos nacionais. Derrota igual, mas do lado Republicano, foi a de Barry Goldwater contra Lindon Johnson, em 64. O que revelou uma tendência muito forte do eleitorado dos Estados Unidos. Trinta por cento votaram fechados em seus partidos. Assim como torcedores de um clube. Para eles a campanha se reveste do caráter de competição esportiva. Mas 40% oscilam. Vêem a política de forma diferente. Procuram encontrar nos confrontos onde se localizam seus interesses e os interesses do país.

A respeito ainda do pleito de 72, concluímos que a espionagem republicana no edifício Watergate, em Washington, sede do PD, foi a maior estupidez política da história. As pesquisas, todas elas, apontavam facílima vitória de Richard Nixon. Os republicanos não precisavam recorrer a métodos ilegais e torpes para enfrentar os democratas naquela ocasião.

E olha que estávamos na era pré internet, pré celular, pré redes sociais. Twitter e face book nem eram projetados. Imagine-se na época de hoje com os diretores de Murdoch em ação. Nixon terminou renunciando em 74, McGovern encerrando a carreira política com a derrota.

Ninguém quer ser taxado, rico, da classe média, ou até pobre. Engana-se quem pensar – Obama não pode cometer este equívoco – que taxar ricos agrada a classe média ou os pobres. Sabem os leitores por que? Porque, penso eu, todos, hoje, desejam acordar ricos amanhã. Uma esperança. E sem esperança não se vive. Taxar os ricos é taxar a esperança, verdadeira ou falsa, possível ou impossível, mas sempre esperança. Estarei recorrendo a uma utopia? Talvez. Mas o que seria do mundo não fossem oss sonhadores e os utópicos. Para recorrer a um verbo de Nelson Rodrigues: nós tropeçamos em utopias todos os momentos. Mas o voto na rua não está entre elas.

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