Ted Kennedy e Carter abalaram a ditadura brasileira

Pedro do Coutto

Um aspecto histórico que deve ser assinalado em torno da morte do senador Ted Kennedy, em relação a nosso país, é o que ele e Jimmy Carter, nos EUA, contribuiram de forma marcante para abalar o ciclo dos militares no poder e assim apressar o fim da ditadura brasileira que durou intensamente de 64 a 85.

O senador por Massachussets recebeu e veiculou no Congresso americano denúncias que lhe foram entregues  pelo jornalista e ex deputado Marcio Moreira Alves e pela estilista Zuzu Angel sobre torturas praticadas em porões militares e policiais e violações de direitos humanos no Brasil. Edward Kennedy, no caso do filho da estilista, acrescentou à tragédia de que ele foi vítima o fato de Stewart Angel ser cidadão norteamericano.

A repercussão foi grande e a ditadura brasileira terminou se tornando um doa temas da campanha eleitoral de 76 quando Jimmy Carter derrotou Gerald Ford, que havia chegado à Casa Branca com a renúncia de Richard Nixon, consequência do episódio Watergate.O vice presidente eleito com Nixon, Spiros Agnew, havia renunciado antes do presidente em face de ter se envolvido com um esquema de corrupção na Flórida, estado do qual fora governador.

Uma rede de TV programou uma sequência de debates entre Carter e Ford e em todos Carter, Democrata, acusava o Partido Republicano de apoiar as ditaduras vigentes no Brasil e no Chile. Da mesma forma que o governo Lyndon Johnson apoiou a operação para derrubar o governo João Goulart, Carter, na campanha, apoiava o fim da ditadura e o restabelecimento da democracia com o respeito aos direitos humanos. Na noite de 4 de novembro de 76, quando os resultados parciais não deixavam dúvida quanto à vitória de Carter, a ditadura brasileira começava a desabar.

A atuação de Carter, claro, foi mais decisiva que a de Ted. Porém foi este quem desencadeou o processo crítico internacional contra a longa noite dos generais. Isso porque enquanto ele, Kennedy, estava no Senado, reeleito sucessivamente, Carter governava a Geórgia. E só foi candidato porque Ted Kennedy não quis concorrer. Ela já havia superado o acidente de Chapaquidick, quando seu automóvel mergulhou num lago, à noite, e sua secretária, Mary Jô Kopechne, perdeu a vida.

Em 80, aí sem, Ted Kennedy disputou as prévias democratas na tentativa de enfrentar Ronald Reagan. Mas derrotar um presidente da República em eleições primárias ou em convenção nacional era uma tarefa impossível. Mas esta é outra questão.

Duas coisas desejo acentuar. A primeira registrar a participação de Ted Kennedy no destino brasileiro. A segunda, sem sofismas, assinalar a inevitável influência dos EUA nos rumos políticos dos países que, como dizem os americanos, encontram-se ao sul do Rio Grande. Rio Grande no caso, é o rio que separa parte da fronteira entre os EUA e o México.

Os golpes de estado praticados na América Latina, todos eles, tiveram que ser aceitos antes por Washington, se não explicitamente, pelo silêncio seguido do reconhecimento do governo instalado. Quem tiver dúvidas do que aconteceu no Continente, digamos, nos últimos 60 anos, deve dissipá-las lendo o livro Legado de Cinzas, de Tim Weiner, um qualificado ex agente da CIA.

O mundo, até a derrubada do muro de Berlim era dividido em duas áreas de influência: de um lado os Estados Unidos, de outro a antiga União Soviética. Exceções confirmando a regra, como a de Tito, em 48, na então Iugoslávia, não se intimidando com o cerco de Stalin. Mas o tempo passa e os fatos são remetidos à memória. A atuação de Ted Kennedy e de Jimmy Carter merece um espaço na história do Brasil.

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