Temer rompe com a candidatura Lula para sucessão de 2018

Pedro do Coutto

Em entrevista a Valdo Cruz e Natuza Nery, Folha de São Paulo de domingo, o vice-presidente Michel Temer, ao defender a tese de que o PMDB deve ter candidato próprio à sucessão de 2018, praticamente rompeu com a candidatura de Lula para suceder Dilma Rousseff no Planalto. O PMDB, disse ele, não quer mais o papel de noiva preferida e sim assumir a posição de protagonista principal. Esse o enfoque essencial das palavras de Temer, antecipando-se portanto ao encadeamento dos fatos previstos para o futuro próximo. A matéria deve ter contrariado frontalmente Luiz Inácio da Silva e criado uma situação sensível para Dilma Rousseff, sobretudo em face de ser ele o coordenador político do governo. Sendo assim, ficou claro que suas ações serão coordenadas também em torno das eleições de 2018.

Além disso, ele ameaçou a própria presidente com a perspectiva de se afastar da missão de coordenador político, caso os cargos que negociou para o Congresso aprovar o chamado Ajuste Fiscal não sejam preenchidos como ficou acertado. Diante da pergunta de Valdo Cruz e Natuza Nery sobre a demora de os compromissos serem concretizados, Michel Temer afirmou: “Vai funcionar. Até porque se a burocracia não funcionar, quem não funciona sou eu; aí eu saio”, acrescentou Temer, respondendo à indagação se ele pensa em deixar a coordenadoria: “Não. De repente, se os compromissos que assumi não forem compromissos, perde o sentido a minha permanência”.

OBSTÁCULOS DO PT

A burocracia a que o vice-presidente da república se refere envolve, de acordo com a reportagem de FSP, obstáculos criados pelos ministros Aloizio Mercadante e Ricardo Berzoini, respectivamente chefe da Casa Civil e titular das Comunicações, que estariam travando a assinatura dos atos presidenciais. Portanto, analisada detidamente, a entrevista de Michel Temer é um sinal claro de insatisfação pessoal e da resistência do próprio PMDB ao papel secundário a que o poder Executivo tem lhe reservado.

As declarações inevitavelmente produzirão reflexos no panorama político já a partir das eleições municipais de 2016. Nessas eleições figura um capítulo a parte, que é a candidatura da senadora Marta Suplicy a Prefeitura da Cidade de São Paulo, que tanto preocupa o PT por forçar divisões eleitorais na cidade do país com maior número de eleitores.

E A RECESSÃO…

Além disso, o ministro Joaquim Levy, ao afirmar na semana passada que a reação econômica do país só deverá ocorrer a partir de 2017, ampliou o prazo acumulado de insatisfação que está atingindo a população brasileira e destacou a falta de perspectiva de reação até o final do próximo ano. É muito tempo para esperar e, nesse caso, a reação, logicamente, virá das urnas que se aproximam. Pois é bom lembrar que antes das urnas, começam as campanhas eleitorais e com isso o panorama político de 2016 inicia-se na verdade no final de 2015.

A ruptura da aliança PT/PMDB abala, sem dúvida, a base de sustentação política do governo Dilma Rousseff, uma vez que o PMDB ocupa seis ministérios, cuja influência política é muito grande e, inclusive, abrangerá as eleições do ano que vem, além, é claro, as eleições presidenciais de 2018.

CANDIDATURA PRÓPRIA          

Se o PMDB, de fato, lançar uma candidatura própria, Dilma Rousseff, para acompanhar Lula, terá que afastar os ministros do partido do vice Michel Temer. Como se vê, o vice-presidente da República, com sua entrevista, que foi certamente pensada e repensada, criou perspectivas difíceis para o governo do qual faz parte, deixando no ar a suspeita de que, no fundo deseja deixar o papel de coordenador do Planalto. Pois, se assim não fosse, não teria ameaçado deixar o posto caso as nomeações com as quais se comprometeu não forem concretizadas.

Foi um lance político estratégico do vice-presidente da República que, antes de mais nada, está pressionando para que suas promessas de cargos em troca de votos sejam assinadas pela presidente da República. Deixou no ar a hipótese de sua renúncia, não à vice, mas ao comando da articulação da presidente. Como na canção, difícil é saber renunciar. Pode acontecer, portanto. Michel Temer, na realidade, colocou sua renúncia nas mãos de Dilma Rousseff.

5 thoughts on “Temer rompe com a candidatura Lula para sucessão de 2018

  1. Isso não passa de chantagem pura e,descarada.
    Nunca vi dois “partidos” se merecerem tanto.
    QUANTO AOS CARGOS MENCIONADOS POR ESSE PICARETA, SÓ VEM MOSTRAR COM MAIS CLAREZA, O QUANTO ESSE PAÍS SE TRANSFORMOU NUM ESGOTO POLÍTICO.

    • …a canção que me veio à baila foi “A Deusa do Asfalto”, Nélson Gonçalves, made in Adelino Moreira…tem(mer)os ou não um palco, além do próprio País, político surrealista?

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