Tempos de Jânio Quadros

Para onde vamos, Jânio Quadros?

Sebastião Nery

RIO – Em 1968, nos turvos dias entre a passeata dos 100 mil no Rio e o AI-5, Jânio Quadros, cassado e longe de qualquer atividade política (ficou fora até da Frente Ampla de Juscelino e Lacerda) pediu ao deputado estadual Fernando Perrone, do MDB de São Paulo, um encontro com a esquerda. Queria conversar mais para saber melhor.Perrone, líder estudantil ligado ao Partido Comunista, inteligente e atuante, tinha amigos nos vários grupos da esquerda que começavam a se preparar para a luta armada.

Na primavera e invasão de Praga pelos tanques soviéticos. Perrone tinha estado lá e fez um belo livro-depoimento. Depois do AI-5, foi para Paris, onde seu apartamento era uma embaixada da esquerda paulista exilada: Aloysio Nunes Ferreira, José Aníbal, Itobi, tantos outros.

PERRONE

O encontro com Jânio, Perrone não quis fazer na casa dele porque muitos já estavam na clandestinidade. Arranjou a suíte do Hotel Comodoro, no centro, na Duque de Caxias. Jânio e Perrone, legais, chegaram primeiro. Os outros foram entrando, um a um, separadamente, cheios de cuidados.

Um deles, já na legalidade, estava se separando litigiosamente da mulher, que contratou dois detetives, de máquina fotográfica em punho, para pegá-lo em flagrante de adultério. A mulher, dentro do carro, viu o marido chegar sozinho. Os detetives subiram atrás e tocaram a campainha.

Como ainda faltava um, Perrone abriu naturalmente a porta. Os flashs das máquinas começaram a pipocar e os detetives entrando gritando:

– Cadê a mulher? Cadê a mulher?

Não havia mulher nenhuma. Foi uma correria louca, todo mundo saindo aos empurrões, escada abaixo. Perrone ficou com Jânio, que, sentado a um canto, com seu uísque na mão, arregalava os olhos e interrogava os detetives:

– Se-nho-res, o que é is-so? Não es-tou en-ten-den-do!

Eles também não.

A “base aliada” de Dilma está como Janio : sem entender nada. Quanto menos senadores e deputados elegeu, mais o PT quer impor.

LULA

Outra historia. Jânio era governador de São Paulo em 1955 e apoiava a candidatura de Juarez Távora (UDN) a presidente da República, contra Juscelino (PSD-PTB) e Ademar (PSP). Lacerda reclamou que a campanha de Juarez em São Paulo estava fraca. Jânio fez uma grande reunião com secretarias, presidentes de empresas estatais, empresários e banqueiros:

– Como sabem os senhores, o general não pode perder em São Paulo. Seria o fim de minha vida publica. Vamos mobilizar apoios, recursos, muitos recursos. Temos que conseguir imediatamente umas 140 “peruas”.

Entra na sala o deputado Fauze Carlos, amigo de Jânio, e lhe mostra a última pesquisa nacional, com Juarez na frente. Jânio disse a Fauze:

– Va-mos pa-rar, meu ca-ro, se-não o ho-mem ga-nha!

A sala ouviu, não entendeu nada, sobretudo quando ele encerrou a reunião. Jânio queria que Juarez ganhasse em São Paulo, mas não demais, para não ganhar no País, porque ele já era candidato a presidente em 1960 e preferia disputar na oposição, como sempre fez quando ganhou.

Juarez ganhou em São Paulo, Ademar no Rio e Juscelino no País. Como Jânio queria, já pensando em 1960.

Lula é o Janio de agora. Vai ficar o tempo inteiro de olho em Dilma. Não quer que ela faça um bom governo porque isso pode atrapalhar seus planos. Lula acha que quanto mais o pais estiver em dificuldades mais espaços haverá entre “o povão” para uma candidatura dele em 2018.

CAMARA E SENADO

Está tudo errado. Estão pisando na Constituição e chutando para debaixo da mesa. O presidente da Câmara Federal, deputado Henrique Eduardo, foi “chamado”, “convocado” pelo ministro da Casa Civil Aloizio Mercadante para uma reunião no palácio do Planalto.E foi.

Ora, o presidente da Câmara é o terceiro homem na liturgia da Republica. Acima dele só a Presidente e o vice-presidente. Quem tinha que chamar, convocar, era ele. E o ministro da Casa Civil, se queria reunir-se com ele, é quem tinha que ir à Câmara. É assim nas democracias.

A “Folha”: “A expectativa é de que o presidente do Senado, Renan Calheiros, seja chamado (!) para uma conversa com o ministro Berzoini”.

O presidente do Senado é o chefe do Poder Legislativo. Como pode ser “chamado” por um ministreco qualquer? O ministro é que tem que ir.

3 thoughts on “Tempos de Jânio Quadros

  1. Texto bom para lembrar e rir.
    quanto aos ministros chamando presidentes das casas legislativas, trata-se apenas de “chamamento aos empregados”. Ambos estão nos lugares em que queriam, mas lá foram colocados por acordos, não por méritos.
    O velho ditado: manda quem pode, obedece quem precisa!
    Nas empresas, costuma-se classificar pessoas assim como “mandaletes, serviçais”.
    pessoas certas, nos cargos certos!
    Quanto a liturgia dos cargos, é preciso cultura para entender, respeitar e desempenhar tais funções e suas exigências. Também não possuem.
    Sinal dos tempos: perda de qualidade. O que vale é o “QI”, a grana e os espaços no poder. O resto, deixa que o povinho faz o que for preciso.

  2. Essa de os de cima correrem a atender às convocações dos de baixo (e que de baixo, tratando-se do herói da rendição e do torturador de velhinhos) se explica: c’ést l’argent, ou em português muito nosso, é a grana.

  3. Em se tratando de politicos(com p minusculo) tudo é possível, até mesmo se subordinar a qualquer ministrinho que os convoca. Espero que no ano que vem com o Eduardo Cunha a coisa seja diferente, o minimo que se espera dele é que seja realmente um “casca de ferida” e não submeta o legislativo aos desmandos da PRESIDANTA.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *