Texto na tela não substitui, mas excita a imprensa escrita

Pedro do Coutto

A jornalista Cláudia Antunes, que está substituindo Carlos Heitor Cony no espaço das quintas-feiras na Folha de São Paulo, publicou na edição de 22 um artigo muito bom sobre os impulsos que se realizam na comunicação eletrônica, seja nos blogs, twitters ou face-book. Cony – infelizmente para todos nós seus leitores – , permanece escrevendo às terças e domingos e também às sextas na última página do Caderno Ilustrada, neste caso alternando com a atriz Fernanda Torres. Mas esta é outra questão. Cony é um estilista fantástico, um gênio.

Voltando ao tema levantado por Cláudia Antunes, ela citou dois exemplos ocorridos semana passada: o acidente fatal para Wanderson Pereira dos Santos que envolveu a participação do filho de Eike Batista, Thor, e a acusação de seqüestro e tortura de crianças, responsabilidade do ditador de Uganda, Joseph Kony. O Tribunal Penal Internacional, inclusive, está processando o sucessor de Idi Amim.

Colocado o vídeo na Internet, informa a articulista, ele motivou 100 milhões de acessos em todo o mundo, no prazo de quinze dias.Como se constata, o processo de informação não apenas tornou-se mais veloz, proporcionando o acesso aos fatos quase em tempo real, como também tornou cada proprietário de um computador numa estação transmissora ou retransmissora de notícias. Com a vantagem de permitir também o envio de filmes e fotografias à rede geral (e mundial) atingindo, portanto, os jornais de todos os países.

Hoje, todas as redações atuam ligadas à Internet. Antes dela, havia os receptores. Agora não. Cada receptor pode-se tornar da noite para o dia também um transmissor. Uma série de episódios conforma o fenômeno. Veja-se o caso de Michel Teló. Veja-se, em dimensão muito maior, o trágico exemplo de Joseph Kony. Entretanto, o sistema da neogaláxia de Gutemberg, para citar McLuhan, não se consolida sozinho. Ele necessita tornar-se matéria de jornal para que sua importância seja exponenciada e, principalmente, analisada.

É porque, penso eu, a comunicação opinativa na tela mágica que atravessa espaços continentais, necessita confirmação e carga opinativa no papel. Há muitos anos, creio que em 1965, quando Cony ainda trabalhava no Correio da Manhã, eu e ele conversarmos sobre o assunto. Surgiam, já naquela época, novas mídias. O telex interativo substituiu as teleimpressoras das agências de notícias. A diferença foi fundamental: as teleimpressoras eram fontes de mão única. Transmitiam porém não recebia texto. O sistema telex, ao contrário, incluía a transmissão e a resposta ou a retransmissão.

A aldeia global, também tema de McLuhan, consolidava-se em torno da televisão. Ela passou a reunir em seu retorno milhões de famílias. Principalmente à noite. No Brasil, as novelas da Rede Globo são o melhor exemplo. Mas se existe a parte noturna, existe a diurna. As emissoras de rádio, as televisões, a Internet, não podem se encontrar permanentemente à disposição do mercado, formado por todos. Mas os jornais podem. Ficam nas bancas e podem ser adquiridos facilmente sem a sensação de fuga de nosso alcance. Porém a diferença não é somente essa.

A opinião, na tela, não penetra na consciência. Adianta pouco neste campo. A força insuperável da opinião está na página escrita. O peso da confirmação também. O artigo de Cláudia Antunes, como sustentei no início, é muito bom. Sem dúvida. Porém a comunicação eletrônica excita, mas não satisfaz o leitor. Ele buscará sempre a confirmação no papel.

A Internet é um avanço notável. A fotografia também foi. Mas não acabou com a pintura. A televisão idem. Mas não acabou com o cinema.

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