Tiririca na Comissão de Educação, Romário na Comissão de Esporte. Isso faz sentido. O que não tem explicação é manter Pedro Novais fantasiado de ministro do Turismo.

Carlos Newton

Certas coisas fazem sentido na política. Por exemplo, o deputado Tiririca ser indicado para a Comissão de Educação. Como ele é sabidamente semianalfabeto, certamente vai lutar para melhorar as condições do sistema educacional público, ao qual não teve acesso.

É preciso reconhecer que, como deputado, Tiririca não gosta de fazer graça, leva a coisa a sério. Está sendo assíduo e interessado. Não é o primeiro nem será o último semianalfabeto a chegar ao Congresso Nacional. Há muitos outros assim, mas estão disfarçados e não assumem sua condição. No caso de Tiririca, sabia-se de sua situação desde que despontou para a fama, com a música “Florentina”, e foi contratado pela Rede Manchete.

A surpresa foi constatar que Tiririca não conseguia ler os roteiros dos programas, fazia tudo de improviso. Nas outras emissoras em que trabalhou, a mesma coisa. Ele improvisa na hora. Assim, ficava difícil esconder seu semianalfabetismo, ele nunca se importou com isso.

Na década de 80, conheci na Câmara um deputado verdadeiramente analfabeto, não sabia ler mesmo. Era suplente de Dante de Oliveira, assumiu quando ele virou ministro do governo Sarney. Líder do garimpeiros de Mato Grosso, ostentava um enorme anel de ouro. Simpático, não escondia que era analfabeto, nem sabia que poderia perder o mandato. E fazia questão de discursar todo dia, no horário do chamado pinga-fogo (à uma da tarde, reservado para “pequenas comunicações”. Falava de improviso, é claro, como Tiririca. Fiz força para lembrar o nome dele, não consegui. No site da Cãmara, também não consegui.

Na minha ignorância, eu pensava que o deputado Juruna também fosse analfabeto, mas me enganei. Ao renovar o título eleitoral na 16ª Junta do Rio de Janeiro (Laranjeiras, Catete, Flamengo), comentei o assunto com a funcionária que me atendeu. E ela imediatamente disse que Juruna não era analfabeto. Por coincidência, Juruna era alistado na mesma Junta, fora ela quem o atendera, e ele preencheu sozinho o formulário eleitoral.

Bem, vamos em frente. Outra coisa que faz sentido na política é o deputado Romário ser escalado para a Comissão de Turismo e Esporte. Ele fica na área dele, gosta não só de esporte, como também, de turismo. Hoje mesmo, está no exterior, participando de uma partida dos veteranos da Copa de 1994, que ele praticamente deu ao Brasil, reconheçamos.

Romário gostaria de estar também na Comissão de Saúde, que foi o verdadeiro motivo de sua candidatura. Como tem uma filha com síndrome de Down, Romário ficou revoltado com o desamparo dessas crianças e decidiu entrar na política, para ajudar no que puder. É uma atitude meritória, não há dúvida.

Também faz sentido a filha de Joaquim Roriz ser eleita deputada e acabar integrando a comissão que vai reformar a política. No caso, aí temos uma questão até genética, que faria delirar o criminalista italiano Cesare Lombroso, que inventou a teoria do criminoso nato.

Mas o que não faz o menor sentido na política é José Sarney ter exigido e conseguido a nomeação do deputado maranhense Pedro Novais para o Ministério do Turismo. Não há a menor explicação para isso. Por que Sarney indicou justamente o octogenário assanhado, patrocinador da festa no motel Caribe, paga com dinheiro da Câmara, ou seja, com recursos públicos? E por que a presidente Dilma aceitou. A única explicação é que este país já perdeu o respeito por sim mesmo. Prefiro muito mais Tiririca e Romário no Congresso do que Novais na Esplanada dos Ministérios. E você?

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *