Todas as vitórias são santas, dizia Nelson Rodrigues

Pedro do Coutto

Nelson Rodrigues, que como ninguém, interpretou tão bem a paixão do torcedor pelo futebol, em sua coluna no Globo, tinha razão. Todas as vitórias são santas. Quando vencemos, no gramado ou na própria vida, devemos agradecer a Deus e receber o êxito com humildade. Nunca deslumbrar. Claro que não foi uma boa partida a vitória da Seleção Brasileira sobre a Coreia do Norte, em nossa estréia na Taça do Mundo 2010, na tarde de terça-feira, mas o importante é que iniciamos nossa caminhada.

O time se encontrou mal em campo, Kaká esteve sem ritmo, revelando também não estar em plena capacidade atlética. Luís Fabiano impediu-se demais, com isso desperdiçando uma série de ataques. Meio campo muito lento na saída de bola, a equipe, como um todo, deslocou-se pouco, e lentamente, desta forma dificultando as jogadas e, pode-se dizer assim, marcando a si mesma. Temos que melhorar, e muito, na partida contra a Costa do Marfim que, no empate de zero a zero, esteve mais perto do gol do que Portugal.

Portanto, domingo voltamos a campo e na sexta, dia 20, enfrentamos os portugueses. Vamos torcer para o escrete melhorar e atuar mais rapidamente. O estado de uma equipe mede-se pelo número de passes que troca para chegar à área adversária. Na tarde da terça-feira trocávamos passes em excesso e custávamos a penetrar na defensiva nortecoreana. Jogando lento nossa atuação não despertou entusiasmo e facilitou o bloqueio da defesa contrária. A Seleção de Ouro, em síntese, estava sem cadência e, talvez por isso, as entregas de bola eram excessivamente curtas. Mas tudo isso passou, vamos lutar pelo hexa com o orgulho de quem já conquistou o pentacampeonato. Mantenhamos a corrente acesa através do pensamento positivo. Todas as vitórias são santas.

Não é a primeira vez em Copas do Mundo que começamos fora de nossa plenitude. Em 58, por exemplo, iniciamos mal e o técnico Feola fez quatro substituições  no time. Saiu Joel, entra Garrincha, sai Mazola entra Vavá, saiu Dino Sani entrou Zito, do Santos, saiu Dida entrou Pelé. Conquistamos a Taça. Em 62, começamos mal, problema agravado com a distensão do rei do futebol, na primeira partida, contra a Tchecoslováquia: zero a zero. Pelé foi substituído por Amarildo. O panorama contra a Espanha não estava nada bom. Vencemos por dois a um, com Amarildo acertando um chute incrível, quase sem ângulo algum. Alcançamos o bicampeonato, no final da ópera.

Em 70, na campanha do tri, surgiram problemas em série nos jogos preparatórios, culminando com a substituição do treinador João Saldanha por Zagalo. Era a Copa do México. Possamos vinte e quatro anos sem um novo título mundial. O que acabou acontecendo nos Estados Unidos, com a providencial convocação de Romário, que terminou prevalecendo. Sem ele, não teríamos ganhado. Devemos ter este reconhecimento para com o craque. Na brilhante vitória de 2002, sob o comando de Felipe Scolari, custamos a engrenar. Quase perdemos para a Turquia, nos salvou um erro do juiz que marcou um pênalti a nosso favor numa falta ocorrida quase a um metro fora da área.

São esses exemplos que devemos ter em mente no momento em que decolamos em busca do sexto campeonato do mundo, nesta décima nona Copa. Devemos recordar que nas dezoito disputas, vencemos cinco e estivemos sete vezes na final. Vamos acreditar, pois com Dunga, nas eliminatórias nos classificamos em primeiro lugar e conquistamos a Copa das Confederações e a Copa das Américas. Vitórias, todas elas são santas. Inclusive a de terça-feira.

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