“Todo morro entendeu quando o Zelão chorou, ninguém riu nem brincou, e era carnaval…”

Mariliense, músico Sérgio Ricardo morre aos 88 anos no Rio de Janeiro -  Notícias sobre giro marília - Giro Marília Notícias

Sérgio Ricardo era um verdadeiro artista multimídia

Paulo Peres

Poemas & Canções   
O cineasta, artista plástico, instrumentista, cantor e compositor paulista João Lutfi (1932-2020), que adotou o pseudônimo de Sérgio Ricardo, afirma que a letra da música “Zelão”  já apresentava uma ruptura com a temática da bossa nova, pois saiu do perímetro da classe média para atingir a favela. “Zelão” ajudou a abrir as consciências de seu tempo, em torno do engajamento da arte com a justiça social. A música faz parte do LP A Bossa Romântica de Sérgio Ricardo, lançado em 1960, pela Odeon.

 

ZELÃO
Sérgio Ricardo

Todo morro entendeu
Quando o Zelão chorou
Ninguém riu nem brincou
E era carnaval

No fogo de um barracão
Só se cozinha ilusão
Restos que a feira deixou
E ainda é pouco só

Mas assim mesmo Zelão
Dizia sempre a sorrir
Que um pobre ajuda outro pobre
Até melhorar

Choveu, choveu
A chuva jogou seu barraco no chão
Nem foi possível salvar violão
Que acompanhou morro abaixo a canção
Das coisas todas que a chuva levou
Pedaços tristes do seu coração

Todo morro entendeu
Quando o Zelão chorou
Ninguém riu nem brincou
E era carnaval

3 thoughts on ““Todo morro entendeu quando o Zelão chorou, ninguém riu nem brincou, e era carnaval…”

  1. Sérgio Ricardo foi um verdadeiro craque.
    Tive um primeiro contato com sua extensa obra, no Teatro João Caetano, na peça sensacional Gota d’água, estrelada por Bibi Ferreira.
    Sérgio cantou uma música dilacerante nessa peça de Paulo Pontes marido da estrela.
    Artistas, como Sérgio são cancelados pela mídia, porque fazem o povo pensar e isso é imperdoável para o Sistema.

  2. PONTO DE PARTIDA – Uma obra prima de Sérgio Ricardo.

    Não tenho para a cabeça
    Somente o verso brejeiro
    Rimo no chão da senzala
    Quilombo com cativeiro, olerê
    Não tenho para o coração
    Somente o ar da montanha
    Tenho a planície espinheira
    Com mão de sangue, façanha, olerê, olará
    Não tenho para o ouvido
    Somente o rumor do vento
    Tenho gemidos e preces
    Rompantes e contratempo, olerê, olará, olerê, lará
    Tenho pra minha vida
    A busca como medida
    O encontro como chegada
    E como ponto de partida
    Não tenho para o meu olho
    Apenas o sol nascente
    Tenho a mim mesmo no espelho
    Dos olhos de toda gente, olerê
    Não tenho para o meu nariz
    Somente incenso ou aroma
    Tenho este mundo matadouro
    De peixe, boi, ave, homem, olerê, olará
    Não tenho pra minha boca
    Sagrados pães tão somente
    Tenho vogal, consoante
    Uma palavra entre dente, olerê, olará, olerê, lará
    Tenho pra minha vida
    A busca como medida
    O encontro como chegada
    E como ponto de partida
    Não tenho para o meu braço
    Apenas o corpo amado
    E assim sendo o descruzo na rédea
    No remo e no fardo, olerê
    Não tenho para a minha a mão
    Somente acenos e palmas
    Tenho gatilhos e tambores
    Teclados, cordas e calos, olerê, olará
    Não tenho para o meu pé
    Somente o rumo traçado
    Tenho improviso no passo
    E caminho pra todo lado, olerê, olará, olerê, lará
    Tenho pra minha vida
    A busca como medida
    O encontro como chegada
    E como ponto de partida.

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