Todo mundo perdeu

Carlos Chagas

Duas semanas perdidas? Depende do ângulo de onde se observe a decisão dos líderes do governo e dos partidos, estabelecendo para só depois da Semana Santa a votação de projetos polêmicos. Ganha o governo, é claro, porque até o dia 10 de abril não correrá o risco de ser derrotado. Mas também perde pela demora na aprovação da Lei da Copa e do Código Florestal, necessários aos seus planos. Os partidos da base oficial podem festejar o adiamento como uma vitória: levaram o palácio do Planalto às cordas, obrigando-o a recuar. No reverso da medalha, lamentam os efeitos da pressão feita sobre a presidente Dilma, cuja disposição de resistir à chantagem cresce a cada dia, fechando a avenida que levava a ministérios, nomeações, liberação de verbas e favores de toda ordem. Como conclusão, todos perderam mais do que ganharam. E mais perderão, caso prolongado o impasse. O singular nesse calendário ainda inconcluso é que a 10 de abril a presidente Dilma estará fora do país, em viagem aos Estados Unidos. Se for derrotada aqui, dificilmente deixará Barack Obama perceber, pois “grito e cara feia” não fazem parte de sua agenda externa.

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REFLEXOS FUTUROS

Até prova em contrário, a crise entre governo e partidos poderá ser resolvida pela fórmula clássica: se atender às exigências fisiológicas dos líderes que a apóiam, a presidente Dilma não terá problemas para aprovar seus projetos. Há quem sustente que desta vez não vai dar certo, dada a inflexibilidade da chefe do governo em atender postulações malfeitas. Nesse caso, as relações do Congresso com o palácio do Planalto seguirão aos trancos e barrancos, importando menos se a popularidade da presidente crescerá por conta disso.

Mesmo assim, reflexos serão inevitáveis quando se abrirem as preliminares da sucessão de 2014. Com a candidatura do Lula indefinida, tanto por razões de saúde quanto por reconhecer à sucessora o direito de reeleger-se, as atenções se voltarão para os partidos. Eles podem não ter votos para decidir contra a voz rouca das ruas, qualquer que essa venha a ser, mas sem sua chancela não vai dar. Em especial se pulverizados em candidaturas próprias.

Os caciques do PMDB, por exemplo, no caso de não serem atendidos em suas postulações, resistiriam à tentação de uma candidatura própria? Michel Temer, Roberto Requião, Sérgio Cabral – nomes não faltarão. A possibilidade de apoiarem Aécio Neves não surge tão absurda assim, eles que já apoiaram José Serra contra o Lula.

O PP não fica atrás, sendo seu líder maior, Francisco Dornelles, primo do ex-governador de Minas. O Partido Socialista ensaia vôo solo, desde já, com o governador Eduardo Campos, de Pernambuco. As legendas trabalhistas estão para o que der e vier. Vindo, poderão acomodar-se com a reeleição de Dilma, mas não dando, correrão para quem der mais. Partidos dispõem de tempo de televisão, na propaganda eleitoral gratuita, fator que se não for decisivo, é quase. O PT, sozinho, não dará conta da candidatura Dilma, até porque os companheiros também se ressentem de caras feias e gritos. Em suma, o que acontece agora irá refletir-se daqui a dois anos.

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CULPADOS DA VIOLÊNCIA

Costuma permanecer em Brasília o renomado escultor Darlan Rosa, quando não está expondo ou inaugurando obras no exterior. Criador do Zé Gotinha, décadas atrás, não descuida da forma física, empreendendo todos os dias longo percurso de bicicleta, por cautela no Parque da Cidade, que está para a capital federal assim como o Central Park para Nova York. Milhares de pessoas, todos os dias, freqüentam o local, ainda que de noite passem ao largo, dado o perigo de assaltos e de violência. Pois não é que esta semana, ao meio-dia, quando pedalava, Darlan viu-se agredido por dois vigaristas que, armados de faca, tomaram-lhe o veículo e se escafederam. Gostaram da bicicleta do escultor, incrementada e sofisticada.

Até aqui, nada demais. Esses assaltos acontecem aos milhares, no país e no mundo inteiro. O singular, na história, é que ao prestar queixa na delegacia respectiva, Darlan ouviu do responsável pela preservação da ordem o absurdo dos absurdos: a culpa da violência era dele… Quem mandou pedalar numa bicicleta perfeita, com quatro marchas, farol, freios especiais, campainha eletrônica e outras modernidades?

Estivesse se exercitando numa máquina enferrujada, caindo aos pedaços e com pneus carecas, nada teria acontecido… Eis o retrato do Brasil, capaz de ser encontrado ao redor da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio, ou em qualquer parque de outra capital.

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OS MESMOS DE SEMPRE

Durante três horas, ao receber os 28 maiores empresários do país, quinta-feira, a presidente Dilma ouviu as mesmas ladainhas de sempre. Queixas sobre queixas a respeito da carga fiscal, de impostos ditos abusivos, da política de juros estratosféricos, das dificuldades de crédito, da falta de infra-estrutura de transportes, da deficiência dos portos, dos altos encargos trabalhistas, dos obstáculos ás exportações, do tamanho da máquina do estado e dos desperdícios do governo. Nada de novo, a cantilena se repete possivelmente desde os tempos do Brasil Colônia.

O que terá deixado decepcionada a presidente da República é que, como sempre, nenhum dos nossos grandes empreendedores trouxe uma só contribuição para o governo, à exceção de sugestões destinadas a melhorar a vida de cada um deles.

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