Toffoli pode ter se excedido no denso juridiquês, em seu voto pouco compreendido

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Charge do Paixão (Gazeta do Povo)

Sérgio Rodrigues
Folha

O voto que o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, levou mais de quatro horas para proferir na quarta-feira (dia 20) deixou todo mundo confuso porque estava em “javanês”, segundo o comentário maldoso do ministro Luís Roberto Barroso.

Vale ressaltar a presença inesperada, em ambiente tão oficial e pomposo, do carioca Lima Barreto (1881-1922), nosso maior exemplo de escritor antioficial.

LIMA BARRETO – A língua malaio-polinésia falada na ilha de Java, na Indonésia, virou na cultura brasileira sinônimo de idioma incompreensível graças ao conto “O homem que sabia javanês”.

Nessa peça cômica, Lima Barreto conta como um picareta chamado Castelo, vendo-se endividado e sem tostão, decide se passar por especialista numa língua da qual nada sabe a fim de tomar dinheiro de um barão decrépito.

A sorte do sujeito é que, num “Brasil imbecil e burocrático”, ninguém sabe javanês, mas tem um respeito enorme por quem finge saber. O malandro vira glória nacional, com direito a um belo emprego público e convite para almoçar com o presidente da República.

Não se sabe se Barroso pretendeu levar tão longe o paralelo entre Toffoli e Castelo.

NOTAS EXPLICATIVAS – De todo modo, com a ajuda das notas explicativas que o presidente do STF se viu obrigado a colar no pé do seu voto, a fim de dirimir as dúvidas levantadas pelos colegas, é razoável concluir que Toffoli compartilha nesse episódio pelo menos uma característica com o personagem de Lima Barreto: o jeitão elusivo, certa sinuosidade escorregadia.

Não a sinuosidade de quem não sabe o que está falando, como o malandro de um século atrás, mas a de quem deseja afirmar alguma coisa (a constitucionalidade do compartilhamento de dados sigilosos dos cidadãos com o Ministério Público, sem a necessidade de ordem judicial) sem que a afirmação chame demasiada atenção para o fato de que derruba liminar expedida por ele mesmo em julho.

COMPLEXIDADE – O STF, como todo o Judiciário brasileiro, cultiva por sobre a complexidade natural da matéria um juridiquês denso, palavroso, floreado e hermético.

Esse é um problema linguístico-social que já começa a ser entendido assim por muita gente da área, por distanciar o cidadão da compreensão do que ali se decide e fazer o país perder tempo.

O problema é que uma boa medida de obscuridade parece ser parte desejável das regras do jogo. Mesmo para os padrões nacionais, porém, Toffoli pode ter se excedido.

Sérgio Rodrigues
Folha

O voto que o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, levou mais de quatro horas para proferir na quarta-feira (dia 20) deixou todo mundo confuso porque estava em “javanês”, segundo o comentário maldoso do ministro Luís Roberto Barroso.

Vale ressaltar a presença inesperada, em ambiente tão oficial e pomposo, do carioca Lima Barreto (1881-1922), nosso maior exemplo de escritor antioficial.

LIMA BARRETO – A língua malaio-polinésia falada na ilha de Java, na Indonésia, virou na cultura brasileira sinônimo de idioma incompreensível graças ao conto “O homem que sabia javanês”.

Nessa peça cômica, Lima Barreto conta como um picareta chamado Castelo, vendo-se endividado e sem tostão, decide se passar por especialista numa língua da qual nada sabe a fim de tomar dinheiro de um barão decrépito.

A sorte do sujeito é que, num “Brasil imbecil e burocrático”, ninguém sabe javanês, mas tem um respeito enorme por quem finge saber. O malandro vira glória nacional, com direito a um belo emprego público e convite para almoçar com o presidente da República.

Não se sabe se Barroso pretendeu levar tão longe o paralelo entre Toffoli e Castelo.

NOTAS EXPLICATIVAS – De todo modo, com a ajuda das notas explicativas que o presidente do STF se viu obrigado a colar no pé do seu voto, a fim de dirimir as dúvidas levantadas pelos colegas, é razoável concluir que Toffoli compartilha nesse episódio pelo menos uma característica com o personagem de Lima Barreto: o jeitão elusivo, certa sinuosidade escorregadia.

 

Não a sinuosidade de quem não sabe o que está falando, como o malandro de um século atrás, mas a de quem deseja afirmar alguma coisa (a constitucionalidade do compartilhamento de dados sigilosos dos cidadãos com o Ministério Público, sem a necessidade de ordem judicial) sem que a afirmação chame demasiada atenção para o fato de que derruba liminar expedida por ele mesmo em julho.

COMPLEXIDADE – O STF, como todo o Judiciário brasileiro, cultiva por sobre a complexidade natural da matéria um juridiquês denso, palavroso, floreado e hermético.

Esse é um problema linguístico-social que já começa a ser entendido assim por muita gente da área, por distanciar o cidadão da compreensão do que ali se decide e fazer o país perder tempo.

O problema é que uma boa medida de obscuridade parece ser parte desejável das regras do jogo. Mesmo para os padrões nacionais, porém, Toffoli pode ter se excedido.

6 thoughts on “Toffoli pode ter se excedido no denso juridiquês, em seu voto pouco compreendido

  1. Foi exatamente isso que eu desejei “explicar” em meu comentário sobre a matéria “Toffoli desiste de proteger Flávio Bolsonaro e faz um voto sem pé nem cabeça” , matéria do nosso Editor Dr. Carlos Newton, postada em 22/11/2019 às 05:00 h,

    Isto é, Toffoli falou num javanês, que é incompreensível em qualquer lugar do mundo, e não só no Brasil. Abaixo transcrevo a síntese do voto de Tóffoli em bom javanês:

    “SÍNTESE DO VOTO DE TOFFOLI PARA A DESCOMPREENSÃO GERAL : ” Isto é devido à metax personificada saxogiciobictenha, que dá um levantamento ipsométrico na sínfise púnica o que provoca uma carga orgolômica e a eliminação da refrangibilidade”

    • Perfeito. Alguém tem alguma dúvida? Vejamos o google traduzindo literalmente:

      “isto é devido à metaxia personificada saxogênica, que dá um levantamento ipsométrico de punk fúnebre ou que provoca uma carga orgânica e uma alteração de refrangibilidade” Entendeu??

  2. Desculpe pelo minha interpretação Guilherme, mas o “NÂO” quer dizer que não queremos mais – nunca mais – o garçom Toffoli. Passa pra próxima mesa…rsrsrs

  3. Aqui no meu arrabalde esse espeto corrido chamamos de rodízio.
    A sofisticação do juridiquês supremo dos albae gallinae filius, talvez guarde relação com excelso cardápio que nossos juízes da mais alta privilegiatura desfrutam. Quanto mais sofisticado o paladar, mais sofisticado é também o verbo prenhe de cultura bacharelesca.
    Hehehehe. Nessa pisada o Toffoli vai acabar sendo o Conselheiro Acácio dele mesmo.

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