Torquato Jardim é um ministro contrariado e de reações imprevisíveis

Torquato não conseguiu nomear o novo diretor da PF

Francisco Leali
O Globo

A posse do novo diretor da Polícia Federal, Fernando Segóvia, aconteceu a portas fechadas na última sexta-feira. No dia 20, está prometida uma solenidade com pompa e circunstância para discursos e fotos. Antes não era assim. Leandro Daiello, o antecessor, tomou posse numa cerimônia na própria PF. O então ministro José Eduardo Cardozo foi lá, e prometeu trabalho conjunto, entoando o bordão “um por todos, todos por um”.

O atual ministro Torquato Jardim deve ir na solenidade do dia 20. Mas, embora aprecie o idioma francês, não está em clima de Alexandre Dumas, que, como se sabe, é o autor de “Os Três Mosqueteiros” de onde vem o tal bordão.

OUTRO NOME – O ministro tinha outro nome para o cargo. Foi atropelado pelo Palácio do Planalto que escolheu Segóvia. Como serão as relações entre o diretor da PF e seu chefe imediato ainda é cedo para prever.

A posse indica, no entanto, que Torquato ainda está contrariado. Chamou Segóvia a seu gabinete, o apresentou aos secretários da Pasta, falou para se acertarem, assinou o termo de posse e só.

Nos idos de 1999, o então ministro Renan Calheiros teve que dar posse a um diretor da PF contra vontade. Na época, o senador alagoano montou uma solenidade cheia de convidados no Ministério numa posse que durou apenas 18 segundos. No instante seguinte, anunciou que pedira para o empossado ser investigado por envolvimento de tortura durante a ditadura. João Batista Campelo durou sete dias no cargo.

APOIO AMPLO – Hoje, a história é diferente. Segóvia entra com apoio de políticos, mas também de boa parte dos colegas que não deixam de apostar na sua seriedade para comandar a instituição. E, ao contrário de Renan, Torquato não é político, nem tem partido, estando no posto sob indicação direta do presidente da República.

Advogado eleitoral, sabe bem quando os ventos da política estão contra ou a favor. Torquato pode querer velejar em mar revolto, relevando o episódio PF. Mas pode também sentir saudades dos tempos em que sua sinceridade verbal não era alvo de conspirações palacianas. Para onde pretende manejar seu barco? Só ele mesmo saberá.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Torquato Jardim era ministro da Transparência. Deu uma entrevista tão forte defendendo Temer que o presidente imediatamente o trocou de Ministério, tirando da Justiça o deputado Omar Serraglio, em condições humilhantes. Serraglio tinha muito prestígio na Câmara, virou um João Ninguém. Na Justiça, Jardim mostrou ser um guerreiro de Temer, tentou “enquadrar” a Polícia Federal, mas foi solenemente desprezado. Hoje, a Polícia Federal não obedece a ninguém. Não possui autonomia de direito, mas na prática faz o que bem entende. O novo diretor Segóvia tem apoio da corporação, conforme diz o articulista Francisco Leali, e não vai boicotar a Lava Jato, que se tornou uma entidade livre e irrepresável, formada pela Polícia Federal, a Procuradoria e a Receita, que dão um show, atuando em conjunto na defesa dos interesses nacionais. (C.N.)

6 thoughts on “Torquato Jardim é um ministro contrariado e de reações imprevisíveis

  1. Quando é que ele vai cantar os nomes da alta cúpula da PM que, segundo ele, estão mancomunados com o crime organizado? Não adianta contar o milagre sem dar o nome do santo…..

  2. O tal bordão “un pour tous et tous pour un”, atribuído a Dumas pelo autor do artigo, não é de autoria de Dumas – foi popularizado por ele. O bordão vem do latim “Unus pro omnibus, omnes pro uno” que surgiu em 1618. O romance de Dumas é de 1844. Sorry.

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