Tragédia e vingança

Em 1979, veio o que se chamou de “anistia ampla, geral e irrestrita”. A ditadura estava no fim, ficara decidido que não haveria mais nenhum general no poder, mas o SNI lutava  em várias frentes, não aceitava perder a força.

Médici viera do SNI, Figueiredo viera do SNI e se conseguisse “fazer” outro general-presidente, seria Otávio Medeiros, chefe do SNI. Por isso, toda a ação e atuação de REPRESÁLIA passava a ser incumbência do SNI. É quem tinha o equipamento, a sede de vingança e o alvo era a TRIBUNA.

O 26 de março de 1981 é o maior sucesso do SNI. Por volta de duas horas da madrugada, a GRANDE EXPLOSÃO QUE DESTRUIRIA O ÚNICO JORNAL QUE RESISTIU INTEGRALMENTE, NÃO TRANSIGIU POR UM MOMENTO QUE FOSSE. Não sobrou nada que pudesse atormentá-los diariamente, NEM DOCUMENTOS QUE PUDESSEM RESPONSABILIZÁ-LOS NO FUTURO.

Foi lancinante para nós todos, da TRIBUNA, e para as personalidades que foram chegando. O primeiro, Barbosa Lima,me disse: “Já vivi o suficiente para pensar que já havia visto tudo. Mas este espetáculo de destruição e desolação, é inacreditável”.

Os bombeiros pediam a todos que ficassem do outro lado, as chamas eram enormes. Me identifiquei para o comandante e ele me disse: “Não há nada para ver, nem escadas para subir, as máquinas foram destruídas e se tiver alguma pessoa lá dentro, receio que não haja sobrevivência”.

Pediu licença, voltou depois e disse: “Esta parte da frente está completamente destroçada”. Falei para ele: “É o meu escritório, onde trabalho durante o dia  muitas vezes à noite”. Me olhou como se estivesse assistindo  uma ressurreição.

Já havia uma multidão, foram chegando mais personalidades: Sobral Pinto, Alceu Amoroso Lima, Bernardo Cabral, Austregesilo de Athayde.

A reconstrução levou 9 meses, com o dinheiro que não tínhamos, o jornal saindo em formato tablóide. É que o SNI intimidou todas as gráficas, “não podem de jeito algum imprimir a Tribuna da Imprensa”. Só conseguimos rodar em Nova Iguaçu, esqueceram.

Repetiram o que fizeram em 1967. Vim de Fernando de Noronha, já com um livro pronto.  Carlos Lacerda quando foi me visitar, viu que eu estava preparando “As Recordações”, me disse logo: “Esse livro é meu” (Nova Fronteira). Alfredo Machado (da Record, nada a ver com o “bispo”) também queria, outras editoras fizeram propostas, logo se soube. O SNI entrou em ação. Até Lacerda se intimidou, junto com os outros, a perseguição era brutal.

Consegui quase que misteriosamente imprimir mil exemplares que presenteei a amigos. Mas a intimidação era de tal ordem, que muitos ficaram com medo do presente.

PREJUÍZOS IRRECUPERÁVEIS, Barbosa Lima e Prudente de Moraes, neto (duas das maiores figuras do Brasil de todos os tempos), queriam que entrássemos com nova ação. Não quis, considerava que a primeira resolveria tudo. Mas a repercussão foi impressionante.

Funcionava no Senado, a “CPI do Terror”, que investigava alguns casos. Presidida por Mendes Canale (Mato Grosso) e como relator, Franco Montoro. Este telefonou para Barbosa Lima,marcou para o dia seguinte, um encontro comigo, no gabinete do presidente da ABI.

Franco Montoro me disse: “Hélio, você já estava pautado para ir depor, mas temos que ouvir você imediatamente”. Voltou para Brasília, afirmando: “marcarei o depoimento, te telefono”.

Menos de uma semana depois eu estava depondo. Senadores (e até deputados) foram à CPI. Meu depoimento levou 6 horas. Dei os nomes de todos, civis e militares que participaram do atentado. Disse textualmente: “Tudo chefiado e organizado pelo general Otávio de Medeiros, atrabiliário, prepotente e arrogante CHEFE DO SNI”.

Agora o final espetacular e aparentemente surpreendente, menos para quem não leu ou não tomou conhecimento do que eu disse. Passados alguns anos, precisei de detalhes do depoimento, e como só falo de improviso, recorri ao Senado para obter as notas taquigráficas, agora  eletrônicas. HAVIAM SUMIDO DOS ANAIS. NÃO HAVIA EXPLICAÇÃO. MAS ERA EVIDENTE: UM DEPOIMENTO TÃO CONTUDENTE NÃO PODIA FICAR COMO PROVA, À VONTADE.

Além de tudo, perda irreparável. Meu arquivo pessoal, documentos contábeis, contratos de publicidade, balanços contábeis da editora, recordações e participações de uma vida inteira COMPETENTEMENTE FORAM MANDADOS PELOS ARES.

Cartas trocadas com as maiores personalidades, lembranças e recordações que pretendia transformar  em livros quase didáticos dessa fase ESPANTOSA DA HISTÓRIA BRASILEIRA, desapareceram, como reconstituir?

Choro e lamento essa perda há 28 anos. Não choro nem lamento todo o resto, lutei por convicção e pelo amor ao país e à coletividade.

Nada disso tem preço que possa ser avaliado, indenizado ou ressarcido. São danos e prejuízos que envolvem muitas vidas e que não podem ser dimensionados na Casa da Moeda e nem no Tesouro Nacional.

Para alguns, ao  explodir o prédio da TRIBUNA, em março de 1981, os agentes da ditadura, cientes da ação indenizatória ajuizada pelo jornal, EM 1979,  tendo como réus, além da UNIÃO FEDERAL, os ex-presidentes Médici e Geisel, visaram também com o demolidor atentado destruir as provas da censura prévia e da censura de qualidade (entre 1968 e 1978)  e do prejuízo que acarretaram à nossa editora, assim buscando dificultar a comprovação da vultosa lesão financeira, patrimonial e moral sofrida  pela TRIBUNA E SÓ AGORA RECONHECIDA PELO PODER JUDICIÁRIO. DEPOIS DE 30 ANOS. Rigorosamente verdadeiro.

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