Tres mosqueteiros em Paris

Sebastião Nery

Isaura, doce e tímida morena, trabalhava na casa de seu Henrique e dona Maria, pais de Betinho, Henfil e Chico Mário (e Vanda, Glória, Tanda e Filó) na casa de Santa Ifigênia, em Belo Horizonte. Chegou analfabeta. Dona Maria comprou caderno, lápis e borracha, para ensinar Isaura a ler e escrever. Mostrava e falava as letras e mandava Isaura repetir:

– A.

– Diz que é A.

– B.

– Diz que é B.

Isaura não acreditava em nada. Nem que A era A e que B era B.

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HENFIL

Henfil, espichando a perna torta e dolorida sobre a areia de Copacabana, me contava a história de Isaura e sorria seu sorriso solto de sempre menino:

– Isaura estava certa. Nossa casa, nossa história era tão fantástica, tão dramática, que parecia mesmo coisa de fantasia. Três hemofílicos numa família só, numa casa só. Não dava para acreditar em nada mesmo.

E eles acreditaram em tudo. E foram à luta para ajudar a construir a esperança, a justiça, a liberdade, um País melhor. Viveram um ato de fé nacional. Betinho, Henfil e Chico Mário, três irmãos que já nasceram marcados pela hemofilia, foram tragicamente infectados pelo HIV em irresponsáveis e criminosas transfusões de sangue de hospitais públicos.

Mesmo assim lutaram até o fim, com a força e a angustiada energia dos que sabem que vão morrer e é preciso caminhar antes de a morte chegar.

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ANGELA REINIGER

A história dos três mosqueteiros de Minas, das mais belas, apesar de trágica, das ultimas décadas no País, revi na França em 2007, no Festival do Cinema Brasileiro de Paris, na primeira exibição do filme “Três Irmãos de Sangue”, obra-prima escrita e dirigida pela sensibilidade, talento e modernidade de Angela Patricia Reiniger.

Não é uma história contada para ser contada. O impacto e mergulho humano do filme vêm da história contada para ser pensada e absorvida. É todo um levantamento histórico, minucioso, sério, biográfico, mas principalmente político, social, de Minas e do Brasil a partir dos anos 50 até a ditadura de 64 e as batalhas da resistência, do exílio, da abertura, da anistia, das Diretas-Já.

No Brasil, onde os fatos envelhecem e desaparecem como balões de São João, esse filme é uma primorosa aula para a juventude aprender como as coisas acontecem, por que acontecem e como se pode lutar para acontecerem, mesmo que seja tão grande o preço e a verdade só costume surgir tanto depois.

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BETINHO

Todos conhecem o Betinho, da anistia do irmão do Henfil, na marselhesa brasileira de João Bosco e Aldir Blanc, “O Bêbado e o Equilibrista”, imortalizada por Elis Regina. E conhecem o Betinho da Ação e Cidadania, marco zero do Comunidade Solidária, do Fome Zero, do Bolsa Família.

Mas, poucos sabem do Betinho que, nos anos 50/60, a partir de Belo Horizonte, criou nacionalmente a Ação Popular, o mais importante movimento estudantil e de jovens do País, desde a União da Juventude Comunista, e que influiu decisivamente em toda uma geração da UNE (União Nacional dos Estudantes) e depois na resistência à ditadura.

Daquela semente poderosa plantada na nossa Belo Horizonte entre 50 e 64, sob as sábias e bravas lições dos saudosos padres Laje e Henrique Vaz e frei Mateus, muita coisa germinou e muitos frutos ainda hoje se colhem. A explosão da genialidade de Henfil e a música telúrica de Chico Mário, vindas depois, também nasceram da generosa energia daquela geração.

Angela Reiniger não fez um filme de pessoas. Fez um filme do tempo. Se você ainda não assistiu, procure numa locadora.

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