Tribuna, Vargas, ataques em 1954, fechada por “populares”

José Joaquim:
”Gostaria que você explicasse por que, na morte do grande presidente Vargas, a Tribuna foi fechada por populares”

Comentário de Helio Fernandes:
Tudo errado, José Joaquim, lógico que você não quer se informar e sim intrigar, tentar jogar um passado que não é meu, (esse de 1949 a 1962, portanto atravessando 1954) com o passado-presente, esse sim, a partir de 1962, todo meu, do qual sou autor e personagem, escrevi o roteiro, dirigi e escrevi diariamente, artigo e coluna.

Sem pretensão, modéstia ou imodéstia, mas com total satisfação, posso dizer: muitos por aí até fariam melhor do que eu, no “continente e no conteúdo”, como gosta de dizer Helio Jaguaribe. Mas não escreveram por mais de 50 anos, certo ou errado, não importa, mas sem faltar um dia que fosse.

Com as possíveis faltas, “justificadas” pelos ditadores de plantão, que me retiravam de circulação, assinavam “meu relógio de ponto”, sempre em locais incertos e não sabidos, muitas vezes desconhecidos até para minha própria família.

Agora, José Joaquim, fatos, fatos, nada mais do que fatos. E numerados, para que fiquem bem claros, elucidativos e fáceis de serem entendidos.

1 – Carlos Lacerda lançou a Tribuna em 27 de dezembro de 1949, sozinho, sem qualquer participação deste repórter. Mocíssimo, era da revista “O Cruzeiro”, a maior publicação (semanal) impressa da História brasileira. (Que atingia recordes de vendas por vários motivos, mas o maior deles quando o Millor lançou aquelas duas páginas centrais da revista, com o título de “Pif-Paf”. Revolução jornalística e histórica).

2 – Quando a Tribuna começou a circular, Getúlio Vargas jamais havia sido presidente, foi apenas e durante 15 anos, ditador, disfarçado mas violento até 1934, e “ditadorzíssimo” de 10 de novembro de 1937, quando se desmascarou, vestiu a roupagem declarada de fascista impondo o que chamou de “Estado Novo”. (E o que o famoso Barão de Itararé, definiu como “o estado a que chegamos”. Mais ou tão arbitrário, autoritário e atrabiliário quanto os generais de 1964).

3 – Carlos Lacerda, em 1943, (portanto, antes da Tribuna existir) acabou coma censura à imprensa, com a famosíssima entrevista de José Américo publicada no Correio da Manhã. José Américo, insuspeito, em 1937, quando se cogitava da eleição de 1938, foi lançado como candidato a presidente, “apoiado por Vargas”.

4 – O candidato dito de oposição, Armando Sales de Oliveira, (cunhado do doutor Julio Mesquita, proprietário do jornal “Estado de S. Paulo”) compunha o que se chamava de “sucessão de Vargas”. Tudo farsa e mistificação, que seria levado pelas águas sujas da ditadura declarada do “Estado Novo”.

5 – Ainda em 1942/43, Vargas mostrou toda a sua formação fascista, era tido e havido como “germanófilo”, expressão popular da época. (Popular e verdadeira). Custou a se definir pelos “aliados”, se “envergava ou oscilava” abertamente pelo outro lado, que era conhecido como “nazi-nipo-fascista”. (Alemanha, Japão e Itália). Não optou por esse lado, não conseguiu vencer a resistência do grande Osvaldo Aranha, esse sim, extraordinário personagem.

6 – Mais tarde, os alemães atacaram e destruíram navios brasileiros (o primeiro foi o “Baependy”. Aí o ditador teve que aceitar a situação, declarou guerra. Repetindo: se não fosse Osvaldo Aranha, (nada a ver com Carlos Lacerda, eram de gerações diferentes), o Brasil teria perdido a guerra, como perderam a Alemanha, Itália e Japão. Catástrofe e tragédia irrecuperáveis.

7 – Conheci Carlos Lacerda na “bancada da imprensa” do Palácio Tiradentes, durante a Constituinte de 1946. Apaixonado por política, (principalmente o estudo e análise dela), e com admiração por oradores, me credenciei muito antes.

Como a revista era semanal e a Constituinte, diária, escrevi várias reportagens, apenas uma assinada com meu nome. Foi o primeiro trabalho importante, fora da redação. Durou 7 meses e 18 dias, (de 1º de fevereiro de 1946 até 18 de setembro, com a promulgação) experiência notável.

8 – Terminada a Constituinte, surgia a Constituição de 1946, (que seria assassinada antes da maioridade), viajei para a Europa, minha primeira viagem fora do continente. Não tive tempo de aprofundar o relacionamento com Lacerda e Juscelino, (este, deputado sem a menor vocação parlamentar), o que aconteceria mais tarde, com os dois.

9 – Essa Constituinte surgia com a deposição do ditador, que durante alguns dias fez “papéis vergonhosos”, não queria deixar o Poder. Cooptou até Luiz Carlos Prestes, que lançou a “Constituinte com Vargas”, tentativa de se manter. No dia 28 de outubro de 1945, à noite, afirmou: “Só morto sairei do Catete”.

10 – Era era apenas uma última encenação. No dia 29, espantoso: às 9 horas da manhã, seu irmão Beijo Vargas tomava posse como chefe de Polícia, um dos cargos mais importantes. (Beijo Vargas era praticamente um mafioso, vivia em boates, bêbado, dava tiros para o alto, assustava a todos, devia estar preso em vez de chefiar a Polícia).

11 – Durou pouco: às 5 e 10 da tarde, Vargas era afastado com a derrubada da ditadura, saiu bem vivo, ao lado do cardeal. (Era a moda na época, Washington Luiz, presidente eleito, faltando 1 mês para completar o mandato, deposto pelo próprio Vargas, deixava o Catete “escoltado” pelo grande cardeal Arcoverde).

12 – O fim da ditadura foi uma farsa. Vargas e todos os seus áulicos se candidataram à vontade, não houve cassação ou inelegibilidade. Foram eleitos sem problemas, e de acordo com a legislação da época, qualquer cidadão podia se candidatar a deputado por 7 estados e a senador por 1. Depois de 15 anos e 5 dias como ditador, esperavam o quê? Não se elegesse?

13 – O marechal Dutra, durante 8 anos ministro da Guerra da ditadura (era sempre “o Condestável do Estado Novo”), foi feito “presidente” (Ha!Ha!Ha!). Logo depois, voltava o próprio Vargas, eleito pela primeira vez na vida. (Em 1930 disputou com Julio Prestes, nenhum parentesco com o próprio, perdeu, claro).

14 – Eleito em 1950, quase não tomava posse, por causa da oposição militar e civil.(Esta, a partir daí, liderada por Carlos Lacerda). Para tomar posse, Vargas teve que chamar para ministro da Guerra, o general Estilac Leal, que era presidente do importantíssimo Clube Militar. Vargas não sabia governar com oposição e Congresso aberto, foi uma catástrofe para ele mesmo.

15 – Vargas “tramou” a própria desgraça, a oposição não era apenas de Carlos Lacerda. Em 1952, foi publicado um documento, chamado de “Manifesto dos coronéis”. Assinado por 69 deles, o primeiro era Amaury Kruel. (Como sempre, Castelo Branco não assinou). O que pretendiam? A demissão do ministro, João Goulart. O presidente mandou prender a todos? Não, preferiu demitir o ministro, que também concordou, disse: “Não faz mal, presidente, temos o Poder”.

16 – Em 1953 e 54, tormento completo, desmandos do governo, oposição cada vez mais violenta, logicamente de Carlos Lacerda, que era um panfletário (isso não é depreciativo) nato, insubstituível para a oposição, insuportável para quem estava no Poder.

17 – Ninguém precisava ser um gênio para perceber que o Brasil fazia história, caminhava para o que se chamou de “desenlace”. A violência dos “varguistas” e a represália dos “lacerdistas” (ou vice-versa), impressionante.

18 – Não sei como é que o país chegou a agosto de 1954. Até lá, não existiam “populares”, José Joaquim, era uma luta entre os que queriam o Poder e os que pretendiam manter o Poder, como sempre d-i-t-a-t-o-r-i-a-l-m-e-n-t-e.

19 – A Cinelândia sempre foi o ponto mais entusiasticamente politizado do Rio. Era totalmente lacerdista. Depois do 5 de agosto, do atentado irresponsável e incompetente dos “varguistas”, o povão queimava os carros do PTB, e dava “vivas” a Lacerda.

20 – Depois do suicídio de Vargas, o mesmo povão passou a queimar os carros da UDN, e dava vivas a Vargas, que teve enterro inesperado e majestoso.

21 – Duas coisas que escrevi na época, e vou relembrar. Se tivessem assassinado Carlos Lacerda, haveria tumulto imediato, logo esqueceriam, ele tinha inimigos demais. Mas assassinaram um oficial da Aeronáutica, jovem, com família, mulher e filhos, isso tem que provocar tumulto, foi o que aconteceu.

22 – Não retiro uma linha do que escrevi sobre Vargas, no dia 25, era sentimento puro e inviolável. “Foi um ato, a ação e o gesto mais genial de toda a História do Brasil. Apenas com um tiro, Vargas derrubou toda a oposição. Nenhum heroísmo, estratégia surpreendente, porque só existia um componente, um valor, um resultado ou constatação: A PERDA DA PRÓPRIA VIDA. Essa é a renúncia que não precisa de interpretação”.

23 – Se Jânio Quadros tivesse se SUICIDADO no mesmo agosto, só que 7 anos depois, teria entrado na História. Mas sua renúncia era uma farsa, uma fraude, uma provocação que não deu certo.

24 – Finalizando para você pensar e estudar, José Joaquim. A Cinelândia fica perto da Tribuna, “varguistas” tentaram chegar lá, apenas isso. Vargas não foi um GRANDE PRESIDENTE, praticamente foi a vida toda mais ditador do que outra coisa.

***

PS – Em relação a Lacerda, podem defini-lo como bem entenderem. Em 1952/53, quando era diretor da revista Manchete, fiz reportagem, intitulada “Os generais da Imprensa”. Analisava os donos de jornais, perfiz rápidos mas isentos. No de Lacerda, escrevi: “Em 1933, com 20 anos, pertencia à Juventude Comunista”.

PS2 – Mandou carta enorme negando o fato, afirmou que tinha amigos no que era chamado de “Socorro Vermelho”, mas jamais se filiou a qualquer coisa do “Partido”. Publiquei, claro, está nos anais.

PS3 – Qualquer que seja a interpretação, foi o maior parlamentar que conheci. Embora o discurso mais brilhante e até empolgante, foi o do então deputado Afonso Arinos de Mello Franco. Noite memorável no Palácio Tiradentes, pouco antes do suicídio de Vargas.

PS4 – Em matéria de prisão, os melhores companheiros foram Lacerda e Mario Lago. Este, irresistível.

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