Tribuno, Abdias morreu sem voz

Lucas Alvares

Enquanto nascia em Franca o menino Abdias do Nascimento, em março de 1914, o genial cineasta norte-americano D.W Griffith esbravejava determinações a seu batalhão de figurantes ensopados de tinta preta durante as filmagens do clássico “O Nascimento de uma Nação” (1915). O épico, que retratou os horrores da Guerra Civil Norte-Americana, reascendeu um dos mais curiosos movimentos culturais da história do ocidente, e que até os nossos dias se faz presente em parcelas da sociedade americana: o lost cause, causa perdida, que via na idéia da supremacia racial o convívio harmônico – desde que em absoluta desigualdade – entre brancos senhores de seu senhorio e negros reduzidos a animais.

O ar de focas-amestradas que a comédia minstrel, encenada no sul dos Estados Unidos até os dias de hoje, dá aos negros – musicais, alegres, festivos e submissos – é um eco da causa perdida sulista, imortalizado no bielorusso Al Jolson também pintado de preto em “O Cantor de Jazz” (1927). Homem que ajudou a abolir a tinta no teatro brasileiro, Abdias, casado havia muitos anos com a norte-americana Elizabeth Larkin, foi exilado nos EUA e vivenciou em terras ianques a quebra de um paradigma.

Ao sobreviver a 97 longos anos, brotou no Brasil pós-escravidão, cresceu em uma jovem República ainda mais excludente aos negros do que fora o Império escravagista, se refugiou no apogeu da contestação ao apartheid velado que fez vervilharem mágoas da Guerra Civil, retornou ao Brasil, ao lado de Brizola se fez deputado e senador e, nos últimos dez anos de vida, perdeu a voz.

E vieram cotas, revistas especializadas – Abdias foi um dos pioneiros da imprensa negra no país, com a sua Voz da Raça, uma publicação da Frente Negra Brasileira, ainda nos anos 1930 – um canal de televisão afro-brasileiro – a efêmera TV da Gente, de Netinho de Paula – a internet, Benedita da Silva, Paulo Paim Filho, Ivani dos Santos, Jurema Batista, Carlos Alberto Caó, Gilberto Palmares e tantos outros.

E não ouvimos Abdias. Uma das minhas maiores mágoas no jornalismo foi, a exemplo destes todos, não ter tido tempo de dar voz a este grande brasileiro que nos deixou há uma semana. Produzi, certa vez, um bonito especial sobre o Teatro Experimental do Negro, iniciativa do tribuno e que reuniu astros do quilate de Haroldo Costa, Léa Garcia, Solano Trindade, Ruth de Souza e Cléa Simões, todos nomes imortais. Perguntei ao querido Haroldo sobre Abdias, e ele – bem humorado – respondeu: “Não está dançando frevo, mas vai bem”. Haroldo, que ainda dança frevo e tem voz garantida todos os carnavais em defesa da cultura afro-brasileira, reverenciou o mestre até seus últimos dias.

Mas onde estiveram setores do movimento negro, que tanto renegam seus pioneiros não alimentados no seio do marxismo, nos últimos dez anos, em que seu maior líder não teve a palavra? Abdias do Nascimento, lúcido até o fim, deixou legado e realizações. Imortal em seus jornais, revistas e peças de teatro, foi um rasgo de dignidade nas pútridas tribunas do Senado Federal dos anos 90, quando conviveu com uma série de processos de cassação de mandato de seus colegas de legislatura. Que o movimento negro, cada vez mais afro e menos brasileiro, ponha os pés no chão e não deixe morrer este libelo contra a segregação.

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