“Tropa de Elite 2”, um clamor contra as trevas do poder

Pedro do Coutto

A senadora Marina Silva publicou um belo artigo  no Caderno Ilustrado da Folha de São Paulo de 27, a respeito do filme “Tropa de Elite 2”, obra magistral de José Padilha, destacando uma qualidade e oportunidade. Mas tecendo leve, porém importante, restrição quanto ao desfecho, já que em sua opinião passa uma atmosfera de generalização quanto ao endereço do mal. Visto sob um compromisso de luta pela reforma, não só na segurança pública mas em todos os setores do Rio de Janeiro e do país, a observação verde é válida. Sob o ângulo da arte não.

A arte é uma linguagem em si mesma, daí porque dela não se pode exigir que parta de um ponto e alcance outro, este na escala positiva ou da esperança. Não é bem isso. Não existe tal vínculo ou obrigação. Na fita de José Padilha, de fato, o endereço da matriz do mal  (está no governo). Porém ele não propõe nem apresenta uma solução. Nada disso. Trata-se de um grito, de um clamor contra as trevas do poder, contra as sombras da farsa. Contra a mendacidade, a prática de se afirmar uma coisa e fazer outra.

Marina Silva compara “Tropa de Elite 2” a “O Ovo da Serpente”, do sueco Ingmar Bergman, um clássico sobre a origem do nazismo. Neste plano de análise comparativa o argumento não é consistente. O nazismo transformou-se na maior tragédia da humanidade de todos os tempos, um repulsivo movimento internacional de supremacia de uma raça sobre as outras, a maior violação de direitos humanos da história. O caso do Rio de Janeiro é diferente.

“Tropa de Elite 2” aborda o tema do envolvimento do poder estadual com o crime organizado ou não, através das ações de uma corrente da Polícia Militar. Marina Silva tem razão quando condena o combate ao crime só pela eliminação do criminoso, base de “Tropa de Elite 1”. Na “Tropa de Elite 2”, o conflito não é mais só entre a lei e a ruptura legal.

Desloca-se também para um campo triangular entre a ordem e a ruptura dela, mas não apenas  protagonizada por policiais e bandidos, mas incluindo no elenco a equipe do poder. Sob este aspecto, a situação, já profundamente crítica, torna-se ainda mais dramática na medida em que altos agentes da ordem, de forma indireta, transformam-se em agentes da desordem.

A senadora pelo Acre focaliza bem a mudança de posição do capitão Nascimento da Elite 1 para a do tenente coronel Nascimento da Elite 2. Ambos desempenhos fantásticos do ator Wagner Moura. No primeiro filma, Nascimento acreditava na extirpação da bandidagem pela eliminação dos bandidos. No segundo, conclui que os bandidos não são somente os que se armam nas ruas, nos becos, na sarjeta, nos morros para o duelo com a PM. Bandidos são também os que contribuem com nomeações para postos–chave que vão acrescentar forte dose de insegurança e desespero à estrutura social, na proporção em que aceitam regras de um jogo macrabo.

Padilha e Wagner Moura procuram, é fato, mas não encontram solução. A platéia aplaude o filme em vários momentos. Vem acontecendo em quase todas as sessões. No fundo, a opinião pública sente-se isso, está representada no grito contra as cavernas do impasse. Os atores, especialmente o personagem Nascimento, voltam-se contra o lugar comum das obras policiais que acabam tradicionalmente com a vitória do bem contra o mal. Hollywood consagrou este princípio, da origem do cinema, no alvorecer do século 20, até o final da década de  60. Mas não resistiu aos fatos.

Padilha comprova isso quando opta pela não solução. Mas deixa firmemente marcado o dever implícito de cada um de fazer alguma parte. Não resolve, porém é o máximo que se pode realizar para ir ao encontro da condição humana, como André Malraux destacou em sua obra eterna.

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