TV a cabo e internet são mercados diferentes

Pedro do Coutto

Numa excelente reportagem publicada na Folha de São Paulo de domingo, 9 de agosto, Caderno Ilustrado, Daniel Castro e Lucia Valentim Rodrigues analisam os espaços da TV a cabo e da Internet no país e acentuam que esta ameaça a evolução da primeira. O tema comunicação é eternamente fascinante desde a Grécia antiga, muitos séculos antes de Cristo, mas não creio que uma abale a outra. São mercados diferentes. Daniel Castro e Lucia Rodrigues assinalam que existem hoje no Brasil 6 milhões e 350 mil assinantes dos canais pagos, distribuídos pela Net, Sky e Abril, suponho.

De 2008 para cá, o setor registrou um crescimento de 17,6%. Possuía 20 milhões de espectadores. A Internet tem 60 milhões de usuários. A comparação, entretanto, implica em análise  mais detida. Em primeiro lugar, o uso da Internet abrange não só as residências, mas o universo das empresas. Inclui a pesquisa. Os canais pagos englobam o lazer, os documentários, os filmes, o jornalismo, obras de arte portanto, as mesas de debates, as entrevistas, programas como o de Oprah. É bem diferente.

No Brasil, para um total de praticamente 54,5 milhões de domicílios, 12%(6,35 milhões) possuem TV a cabo. O total de residências com televisão passa de 90%. É um bem motivador, como se verifica. Nem poderia ser de outra forma. Há motivação também para o cabo, dada a multiplicidade de canais. Mas existe o limite de expansão imposto pelo preço, pelo valor da mensalidade. Afinal em nosso país, segundo também o IBGE, somente 7% ganham mensalmente acima de dez salários mínimos. Como pagar?

O mesmo índice mercadológico fixa um teto para a expansão da compra de computadores. Como determina também uma fronteira para a contratação dos planos e seguros de saude. Mas estas são outras questões. O ponto essencial que impede a unificação dos mercados da TV a cabo e da Internet, penso eu, está no compartilhamento.

Um aparelho de televisão é compartilhado simultaneamente por várias pessoas da família e amigos que normalmente recebem. As duas coisas. Os computadores são de operação individual. Muito raro que o operador tenha a companhia de alguém. Não quero dizer que não aconteça, porém se trata de incidência percentualmente pequena.

Em matéria de CDS e DVDS, muitas obras de fato são baixadas pela Internet. Influi no mercado de consumo, como disseram Daniel e Lucia na Ilustrada da FSP. Mas não na dimensão da audiência dos canais a cabo, inclusive porque em larga escala estes incluem transmissões esportivas. Assim, creio que os dois sistemas se intercompletam. Como acontece com os jornais, com as emissoras de TV aberta e estações de rádio.

Quando no final de 1950 a televisão chegou ao Brasil, implantada por Assis Chateaubriand, Tupi do Rio e de São Paulo, houve quem pensasse que seria o fim da era do rádio. Não foi. Nada disso. Os futurólogos esqueceram, não somente a força do rádio, mas também a audiência de mobilidade, acentuada com a expansão da indústria automobilística. Não se pode dirigir e ver televisão. Mas se pode guiar ouvindo rádio. Existe também o transistor, outra invenção do início da década de 50.

Por estas experiências que os fatos acumularam na história moderna, a tendência é que a comunicação, claro, se expanda em função da Internet. Mas um setor não eliminará o outro. A propósito: em matéria de notícias em tempo real, o que acontece? Os internautas recorrem aos sites de quem? Dos jornais.

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