Última tentativa para escapar do descrédito

Carlos Chagas

Caso os advogados de Carlos Cachoeira não tenham conseguido sucesso junto ao Supremo Tribunal Federal na tentativa feita ontem até as últimas horas da noite, de adiar o seu depoimento, abre-se hoje a possibilidade de a CPI escapar do descrédito. Será uma pequena fresta na janela até agora fechada, responsável pela escuridão em seus trabalhos. Porque mesmo com a disposição de ficar calado, se comparecer, o bicheiro ficará exposto. Receberá de deputados e senadores perguntas que já trarão as respostas embutidas, a respeito de suas falcatruas.

Acompanhada a sessão pela imprensa, e transmitida ao vivo pelo rádio e a televisão, ficará a opinião pública conhecendo detalhes dos crimes cometidos não apenas pelo Cachoeira, mas por políticos, empresários e governantes que integravam a quadrilha. Pode ser um bom começo, se realmente acontecer.

O triste, nessa novela de lamentáveis capítulos, é que mesmo se Cachoeira for fulminado, a empreiteira Delta estará blindada, assim como os governadores Marconi Perillo, Sérgio Cabral e Agnelo Queiroz. É do interesse do governo federal que a empresa fique preservada no plano nacional, especialmente com relação às obras do PAC sob sua responsabilidade. Assim como PSDB, PMDB e PT não parecem dispostos a entregar o pescoço de seus correligionários, acertando-se os três para praticar a defesa mútua. Cachoeira, sem partido, irá para o sacrifício. O senador Demóstenes Torres, também.

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O PUXA-FILA

Reúne-se esta semana o plenário do Supremo Tribunal Federal para uma sessão administrativa onde serão definidos os ritos do julgamento do mensalão. Este, porém, só começará quando ministro-revisor, Ricardo Lawandowski entregar o seu texto, coisa esperada para os primeiros dias de junho.

Deve ficar acertado entre os onze ministros que o primeiro a ser julgado será o ex-chefe da Casa Civil, José Dirceu, chamado pela Procuradoria Geral da República de chefe da quadrilha. Se for absolvido, estará aberta a porta para a maioria de seus companheiros de infortúnio também se livrarem da cadeia. Se for condenado, recomenda-se aos demais réus que levem escova e pasta de dentes no bolso, preparando-se para uma temporada atrás das grades.

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PELA CULATRA

Saiu pela culatra o tiro que o PT pretendia dar no julgamento do mensalão, imaginando que a constituição da CPI do Cachoeira abafaria a missão do Supremo Tribunal Federal. Aconteceu o oposto, ou seja, a mais alta corte nacional de justiça, tomada em brios, apressou a tramitação do processo contra os mensaleiros.

A indagação que se faz é se o Procurador Geral da República pedirá pena de prisão para os réus mais envolvidos no escândalo ou se ficará nas advertências, multas ou prestação de serviços civis. Fosse ouvida a voz rouca das ruas e quase por unanimidade a população se pronunciaria pela cadeia. Nessa hipótese estaríamos assistindo algo de inusitado em nossa crônica política-policial.

Se é verdade que Paulo Maluf e o ex-governador José Roberto Arruda já viram o sol nascer quadrado, foi como exceção e apenas por pouco tempo, sem sentença condenatória, apenas preventivamente. A oportunidade é para cadeia, mesmo, em penitenciárias comuns, não no xadrez da Polícia Federal.

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VOLTE PARA O BRASIL!

Corria na Câmara, ontem, versão capaz de reafirmar que a presidente Dilma é mesmo carne de pescoço. Meses atrás, numa viagem à Europa, ela tinha importante compromisso na Turquia, quando faria exposição sobre a possibilidade de investimentos em nosso país, junto a substancial grupo de empresários turcos.

Como se tratava de detalhar aspectos de nossa indústria, estava escalado para acompanhá-la Fernando Pimentel, do Desenvolvimento Industrial. Na hora do seminário, onde estava o tão necessário ministro? Em Roma, tendo-se desligado da comitiva presidencial ainda na Bulgária, aliás, em aviãozinho fretado por um empresário brasileiro.

A presidente ficou uma fera e Pimentel, pelo telefone, desculpou-se, dizendo que poderia chegar à Turquia, reincorporando-se ao grupo. Reação de Dilma: “Não senhor! Volte imediatamente para o Brasil!” Dilma discorreu sozinha sobre as possibilidades brasileiras…

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SUBSÍDIOS NÃO FALTAM

Se os integrantes da Comissão da Verdade estiverem sem pauta para iniciar os trabalhos de investigação de práticas de tortura, seqüestros, assassinatos e ocultação de cadáveres, poderão recorrer à farta literatura existente a respeito. Depois do “Tortura: Nunca Mais”, de D. Evaristo Arns, do “Brasil: Nunca Mais”, da Editora Vozes, entre centenas de outros relatos, tornou-se agora essencial o “Memórias de Uma Guerra Suja”, do ex-delegado Cláudio Guerra.

Pela primeira vez alguém do lado de lá denuncia em detalhes como agiam os animais a serviço do Estado brasileiro. Dá nomes, situações e até locais onde eram queimados os corpos de presos políticos. Se convocado para depor deixará os sete membros da CV muitas semanas sem dormir.

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