Último Tango: a estupidez da censura e da ditadura

Pedro do Coutto

Foi um belo artigo, sem dúvida, o do jornalista Ruy Castro, Folha de São Paulo, edição de sábado, sobre a morte da atriz Maria Schneider, protagonista principal ao lado de Marlon Brando, do Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, cuja exibição no Brasil, em dezembro de 72, foi proibida pela ditadura militar. Uma estupidez, um falso moralismo, uma posição incrível em relação à arte, um absurdo total.

Hoje, o Último Tango passa nas sessões da tarde nos canais de televisão. É o que digo sempre: a censura está na contramão da história. Tanto assim que não existe obra de arte, documento político ou tratado científico que, proibidos numa época, não tenham sido veiculados livremente tempos depois. A interdição do filme de Bertolucci cobre o manto do ridículo toda uma época discricionária.

E – importante assinalar – não só os autores da proibição, mas também os que, podendo falar, se calaram diante dela. Críticos de cinema, artistas, escritores de peso se refugiaram no silêncio. Lembro que o crítico Antonio Moniz Viana, tão justamente elogiado no momento de sua morte pelo mesmo Ruy Castro e por Carlos Heitor Cony, pelo que escreveu, não foi focalizado pelo que deixou de escrever em episódios como o do Tango.

Na realidade, inclusive, não houve um Muniz Viana. Houve dois. Um, o intelectual autor de textos memoráveis, outro o apaixonado pela ditadura militar que se ocultou no silêncio. Para Moniz Viana, a política era algo assim como uma grande disputa de futebol. Levava para o Plano da análise a paixão do torcedor. Mas estava errado na essência. A política não é um confronto esportivo.

Mas esta é outra questão, que, aliás, envolveu também o grande Nelson Rodrigues na série “As Confissões” que escrevia em O Globo. Por muitas vezes incrivelmente empenhou-se até em negar a prática de torturas nos porões do arbítrio. O tempo terminou por responder ao artista genial, ao lado do livro histórico Tortura Nunca Mais, que contou com a participação notável do Cardeal de São Paul, Dom Evaristo Arns.

O tempo condenou igualmente a incompreensível censura ao desempenho de Marlon Brando e Maria Schneider. Destaque especial para o ator de Um Bonde Chamado Desejo, que concordou em contracenar com uma atriz principiante e desconhecida. O Tango em Paris – tenho certeza – fica na história do cinema, nem tanto pelo valor da obra, mas por representar o lado fundamental da arte que avança através de rupturas. No fundo, a obra de arte será eternamente uma ruptura. Bertolucci, Brando e Maria Schneider abriram uma nova perspectiva para o cinema. A exemplo de outros filmes em suas épocas.

O filme Les Amants, de Louis Malle, com Jeanne Moreau, por exemplo, criou uma confusão entre nós, em 1960, por causa de uma cena de sexo. Até o Cardeal do Rio de Janeiro, o conservador Dom Jaime Câmara, se meteu na história. Carlos Lacerda escreveu um artigo contra o filme na Tribuna da Imprensa. Basta lembrar a cena de ontem e comparar com uma longa sequência explícita de O Cisne Negro, em exibição hoje, para se ter a prova concreta de como Les Amants e O Tango em Paris contribuíram para o avanço da arte cinematográfica. Depois do Cisne Negro, não pode haver censura a nada.

Na comovente despedida de Ruy Castro a Maria Schneider, fica sepultado junto com ela um passado obscurantista da vida cultural brasileira.

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