Um ardil e uma contradição

Carlos Chagas

Até transformada em livro, vale lembrar uma das grandes contradições da Segunda Guerra Mundial, quando se afirmava que só loucos se apresentariam para ser pilotos de aviões de caça. Na hora em que um deles comparecia ao serviço de saúde pedindo dispensa e dizendo-se louco, os médicos o mandavam de novo para as batalhas aéreas com um só diagnóstico que também era um ardil: “por isso mesmo…”

Guardadas as proporções, é o que acaba de acontecer em São Paulo, com o secretário de Segurança Pública, Fernando Grella Vieira, à frente. Ele proibiu a Polícia Militar de prestar socorro a vítimas nos casos de lesões corporais graves, homicídios, tentativas, latrocínios e seqüestros seguidos de morte. Quer evitar que policiais não qualificados transportem um ferido em suas viaturas, ou tentem prestar-lhe os primeiros socorros. Alega que poderão estar contribuindo para piorar o estado do infeliz. Melhor aguardar os para-médicos do SAMU ou do Corpo de Bombeiros. De tabela, o Secretário também pretende que não se desfaça o local do crime, para não prejudicar as investigações.

Quer dizer, o cidadão está prostrado na calçada, com uma ou muitas balas no peito e o PM não pode tentar conter a hemorragia e, muito menos, levá-lo ao hospital. Deve esperar pela ambulância que ainda não foi chamada, que poderá ficar presa no trânsito e que nem está por perto. Poucos minutos são cruciais para salvar vidas. A vítima corre o risco de virar defunto e a polícia está proibida de agir, mesmo sabendo que sua missão fundamental é proteger o cidadão. Mais ridícula fica a situação quanto se alega que para poder identificar e punir o assassino fujão, o local do crime não deve ser alterado, nem a faca enterrada na barriga de alguém poderá ser retirada. Só assim as investigações revelarão se a facada foi dada de cima para baixo ou de baixo para cima…

O pior nessa história é que tem gente aplaudindo tamanha contradição, na verdade um ardil para privilegiar a burocracia em detrimento da preservação de vidas.

ATENTADO À INTELIGÊNCIA

Que José Serra e Aécio Neves nunca se deram bem, é evidente. O entrevero entre eles vem dos tempos de Tancredo Neves, que não suportava Serra, como Serra não o suportava. Nem o avô nem o neto.

Apesar disso não dá para entender como alguns tucanos aventam a hipótese de Serra deixar o ninho e buscar outro partido pelo qual possa candidatar-se de novo a presidente da República, precisamente para enfrentar Aécio, que o PSDB lançará. Se verdadeira essa versão, por sinal já desmentida, estaríamos assistindo o funeral não só dos dois candidatos, mas do Tucanato inteiro.

O senador mineiro tem áspero caminho pela frente, até que esteja oficializada sua candidatura. Parece provável que o ex-governador paulista venha a fazer tudo o que puder para erigir obstáculos diante do colega, até estimular o governador Geraldo Alckmin a disputar a indicação. Mas mudar de galho e manter acesa a chama de mais uma tentativa, de jeito nenhum. Ou uma coisa ou outra.

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