Um cantador com diploma de nordestino

O declamador, letrista, poeta e repentista Geraldo Ferreira da Silva, nascido em Parelhas (RN), mais conhecido como Geraldo do Norte, O Poeta Matuto, em suas poesias aborda sempre temas regionais, como a vida no Serto, o trabalho do vaqueiro, as festas religiosas, os grande nomes da regio, alm de denunciar problemas sociais, como a fome e o preconceito contra o nordestino. Todas essas caractersticas esto presentes neste poema Diploma de Nordestino.

DIPLOMA DE NORDESTINO
Geraldo do Norte

Deus quando criou o mundo, fez uma obra completa,
como um poema matuto, feito pelo Deus poeta.
Destes que sai redondo, metrificado profundo, que nem precisa de teste.
Fez rios, vales e serras, Terra e sementes da Terra: fez uma obra de mestre!

O planisfrio terreno, com todos os continentes.
Vales grandes e pequenos, regies frias e quentes!
Oceanos Pacfico e rtico. Atlntico, ndico e Antrtico.
Ecossistema perfeito, com tudo quanto vivente.
Lavas, girinos, sementes; a essncia do bem feito.

No curso da natureza vieram os conquistadores.
Manipularam riquezas, dilapidaram valores.
Pelo mar plantaram, pela terra escravizaram
e, em nome do progresso, poluem, desmatam,
agridem, prostituem, matam e denigrem, virando o mundo do avesso!

Sei que Deus pensou em tudo na hora de fazer o mundo.
O Seu pequeno descuido foi dar asas a vagabundo.
Que expulso do paraso, fez tudo que foi preciso para pagar sua parcela
e atravs dos humanos, que continuam cobrando, juros e juros em cima dela!

Faz parte da Natureza, desde Caim e abel.
Por gozo, fama e riqueza nosso limite o cu.
Deus fez o mundo perfeito: o povo veio desse jeito para ver se passa no teste,
mas deixo neste segundo, a grande histria do mundo, para falar do meu Nordeste!

um mundo dentro doutro, como se fosse a maquete.
O que h de mais profundo; podem fazer uma enquete,
que as raas mais resistentes, e eu falo de bicho e gente,
sem desmerecer ningum, mas nas outras religies,
ningum tem as privaes, que o nordestino tem.

Em toda a velha glamura, tu no vers nada igual.
Lendas, costumes, bravuras, para o bem o para o mal.
Tem que nascer na misria para ser Maria Quitria, Padim Cio ou Lampio;
porque Deus fez o Nordeste para oficina de teste e vestibular de serto.

O Brasil sem o Nordeste, um time sem goleiro;
um aluno sem seu mestre ou um galo sem terreiro;
uma casa sem criana, um povo sem esperana,
um vaqueiro sem cavalo. Uma noite sem estrela,
um rio sem cachoeira ou uma flor sem orvalho!

como um divisor de guas; difcil at de falar;
tem a beleza da lgrima, a bravura do marru!
pedra de fazer ao, cozida pelo mormao de caldeira de sol quente;
a saga de um povo, que nem Deus fazendo de novo, fazia to resistente!

Diploma de nordestino no se compra em faculdade:
se arranca do destino com luta, fora e vontade,
afrontando a prpria sorte e trofu de cabra forte, que levanta quando cai,
no aceita desaforo e nem pe anel de ouro, em dedo de papagai.

As trovas de Z Limeira, as rimas de Patativa,
so cultura de primeira e sertaneja nativa.
Leonardo Motta Cascudo, deixaram para ser estudo, livros e livros de histria
e Catulo fez cano, como Luar do Serto para ficar na memria.

s vezes tentam mostrar, outro nordeste que existe:
feio, violento e vulgar, mas as tradies resistem.
Elomar, Vital Farias, os congressos de poesia,
nossas festa de So Joo e no vai ser uns infelizes,
que vo podar as razes, plantadas por Gonzago.

Cultura no quinquilharia! Rapina no conquista.
Dom no se compra em padaria: Giglo no artista,
poltica no negcio, vendas no sacerdcio, vcio nunca foi virtude!
Mentira no tem verdade, esmola no caridade nem religio, plenitude!

E quando o povo acordar, droga no der inspirao.
Vagabundo no mandar, o heri no for ladro.
Prostituio sucesso. Promiscuidade progresso
e Deus tiver absoluto, eu vou estar no meu cantinho,
fazendo com muito carinho, mais um poema matuto!

(Colaborao enviada por Paulo Peres Site Poemas & Canes)

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