Um dia cinzento de chuva, na poesia melanclica de Ribeiro Couto

Couto,retratado por Vicente do Rego Monteiro

Paulo Peres
Site Poemas & Canes

O magistrado, diplomata, jornalista, romancista, contista e poeta paulista Rui Ribeiro de Almeida Couto (1898-1963), no poema Chuva, compara um dia cinzento ao silncio existente entre duas pessoas, como se chovesse melancolia dentro delas.

CHUVA
Ribeiro Couto

A chuva fina molha a paisagem l fora.
O dia est cinzento e longo Um longo dia!
Tem-se a vaga impresso de que o dia demora
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, l fora.

Da saleta fechada em que estamos os dois,
V-se, pela vidraa, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta
E ns dois em silncio, um silncio que aumenta
se um de ns vai falar e recua depois.

Dentro de ns existe uma tarde mais fria

Ah! Para que falar? Como suave, branda,
O tormento de adivinhar quem o faria?
As palavras que esto dentro de ns chorando

Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Esto l fora no jardim se desfolhando.

Chove dentro de ns Chove melancolia

3 thoughts on “Um dia cinzento de chuva, na poesia melanclica de Ribeiro Couto

  1. Chove dentro de ns….chove melancolia. sempre assim, uma chuva fininha desperta uma melancolia dentro de nossos coraes, ou seja um estado de tristeza. Mas eles eles esto juntos na saleta, com certeza felizes com a tristeza , como dizia “Vitor Hugo a melancolia a felicidade de estar triste. Belo poema. Gostei.

    Quem dera que aqui nas Gerais a chuva no ficasse s ameaando, mas no cai.

  2. Um dos mais belos e melanclicos poemas de Ribeiro Couto:
    “Noturno da Vila Abernssia

    A casa deserta adormeceu.
    Uma torneira mal fechada, l dentro,
    Pinga, num ritmo certo, a sua gota sonora.
    Esse rumor o nico rumor da vida.

    A luz eltrica tem a claridade lvida
    Das salas de jogo s trs da manh.
    Entretanto, alumia uma sala casta,
    Cheia dos meus pensamentos melanclicos

    A vida sempre foi amarga para alguns.
    Vem da noite fria, na estrada,
    A surdina fanhosa dos insetos tmidos.

    Ali, embaixo, na vila adormecida,
    Cabeceiam, amortecidas, algumas luzes.
    a pobre vilazinha dos tsicos.
    A vida sempre foi amarga para alguns.” –

    E continua sendo, amarga para alguns, e doce para os escolhidos.

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