Um dia o governo acaba

Sebastião Nery

José Murici, cearense boa praça, era fiscal do Instituto Nacional do Sal, em Alagoas, e adorava Maceió. Adorava política também. Vieram as eleições para governador, Murici mergulhou de cabeça na campanha e perdeu. Seu candidato foi derrotado.

O novo governador pediu e Murici foi removido para o Ceará. Ficou desesperado, mas não podia fazer nada. No dia da volta para Fortaleza, encontrou no aeroporto o secretário do governo estadual que tinha providenciado sua saída. Avançou em cima dele como uma fera ferida.

De serviço no aeroporto, estava Bezerrão, investigador de polícia e analfabeto, 2 metros de altura e 150 quilos de peso. Agarrou Murici pelas costas, levou-o para um canto e lhe disse baixinho:

– Murici, Murici, eu sou mais velho do que tu. Não sei ler, mas conheço a vida. Volta para o teu Ceará, que um dia esse governo acaba e tu vem de novo. Se o que sobe não descesse, o céu estava cheinho de lasca de foguete.

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HISTÓRIA MAL CONTADA

Queimado de sol, cabelos brancos displicentemente penteados, terno azul, sem gravata, Antonio Galotti entrou como um furacão no saudoso Antonio’s, no Leblon, naquele fim de noite de fevereiro de 79. O restaurante explodiu numa salva de palmas continuada e sarcástica. Alguém gritou: “Apaguem-se as luzes! Não precisa mais! A luz chegou!”

Tarso de Castro respondeu:

– Ótimo! Todas as contas pagas!

Paulo Casé, desconsolado:

– Que pena, eu acabei de pagar a conta.

Todo mundo já sabia do último escândalo nacional. Geisel, que ia entregar o governo a Figueiredo no dia 15 de março, antes de sair comprou por uma fortuna a Light, presidida por Galotti, que teria que ser devolvida de graça ao governo brasileiro porque o prazo de concessão estava terminando.

Uma mesa começou a cantar, com a música do Flamengo:

“Galotti, Galotti, tua glória é lucrar! Galotti, Galotti, campeão de faturar!”

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GALOTTI E CHICO

Galotti senta-se à mesa de Miguel Lins, Otto Lara Rezende, Mauro Salles:

– Meus amigos, que foi bonito, foi! Foi ou não foi bonito? Foi maravilhoso! Não ganhei zero da Light na transação. Tive só 39 do Brascan (US$ 39 milhões que recebeu do grupo canadense Brascan, que “vendeu” ao Brasil a Light que já era do Brasil). Estou emocionado! Tô chorando! Me dá um lenço que vou chorar! Me dá teu lenço, Mauro, para eu enxugar minhas lágrimas! Como no samba, eu chorei!

E as lágrimas lhe rolavam rosto abaixo, indisfarçadas. Falava agitado. Em outras mesas, Rubem Braga, João Nelson Sena, Arnaldo Jabor, Norma Benguel, os Miguel Faria, pai e filho, Chico Buarque.

Na mesa atrás da de Galotti, amparado pelo vinho e pelo jantar, fui discreto anotando toda a estrepitosa euforia dele, que contou tudo noite adentro e no dia seguinte publiquei na “Tribuna da Imprensa”: “O Delírio de Galotti”. A IstoÉ reproduziu e está em meu livro “Pais e Padrastos da Pátria”. Chico Buarque ia saindo, Miguel Lins o chamou: “Antonio, você conhece o Chico?”

“Muito prazer, meu filho. Você ainda é muito mais charmoso pessoalmente do que nas fotos. Você sabe quem eu sou?

– Sei, sim. O senhor não é o homem da história mal contada?”

O governo de Geisel acabou assim, com uma história mal contada.

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