Um enigma para Dilma

Carlos Chagas

A presidente Dilma Rousseff defronta-se com um mistério dentro de um enigma, e não se trata de saber como dar início à reforma política, nem como recuperar a economia ou, muito menos, fazer chover nas regiões assoladas pela seca. Sequer onde buscar seu novo ministro da Fazenda.

O mais importante para a chefe do governo é encontrar mecanismos para impedir a eleição de Eduardo Cunha presidente da Câmara, no biênio 2015-16. Porque o parlamentar fluminense, seu desafeto, tem a vitória nas mãos. Mais da metade da bancada do PMDB o apoia, junto com as oposições e montes de integrantes de partidos menores que integram a base parlamentar oficial mas mostram seu descontentamento diante da postura autocrática do palácio do Planalto.

Bem que a presidente já cuida de arregimentar suas forças, a partir da unidade do PT. Está cobrando da parte do PMDB que ainda segue as diretrizes do vice Michel Temer um voto de fidelidade, junto com partidos supostamente a ela ligados, como PP, PR, PDT e penduricalhos. O problema é que graças à sua postura distante e alheia aos partidos, apesar de haver distribuído ministérios de mentirinha ao longo dos últimos quatro anos, Dilma despertou reações. Ganhou a reeleição por muito pouco e tem consciência de só poder contar com o PT e a metade menor do PMDB. Além do mais, carece de um candidato natural para enfrentar o dissidente peemedebista.

Escolhendo um companheiro, mesmo o fiel Arlindo Chinaglia, custará a emplacá-lo junto às demais bancadas. Optando por alguém do PMDB, arrisca-se a enfrentar maior reação do partido que resiste a ser fracionado. A um candidato dos partidos menores, como Miro Teixeira, talvez falte lastro para sensibilizar a maioria da Câmara.

Em suma, se precisar engolir Eduardo Cunha, a presidente passará apertada para lidar com o Congresso, apesar de manter maioria no Senado. Poderão, a partir do ano que vem, entrar em pauta projetos contrários aos interesses do governo, em especial os que aumentarem despesas. Bem como dormir nas gavetas da Câmara as propostas necessárias ao desenvolvimento do segundo mandato. Dessa vez, não haverá como apelar diretamente para a população, não dá para insistir em plebiscitos ou mesmo referendos. As coisas do Legislativo resolvem-se no Legislativo. Nem o Lula teria condições de vir em socorro da sucessora.

Houve um presidente que resolveu enfrentar a suposta maioria parlamentar e venceu, Castello Branco lançou Bilac Pinto, da UDN, contra o dono da cadeira, Raniéri Mazzilli. Também, além do Ato Institucional que cassava mandatos, tinha os tanques a seu dispor…

SEM SAÍDA

Dionísio I, tirano de Siracusa, julgava-se um poeta excepcional e não havia quem o desmentisse, em sua corte. Convidou um poeta de verdade, Filóxeno, para ouvir seus versos e ouviu dele que nada valiam. O infeliz foi condenado a trabalhos forçados nas pedreiras da Sicília, mas Dionísio arrependeu-se, mandou soltá-lo e ainda lhe ofereceu um banquete. Apresentou novos versos e, sequioso, indagou a opinião do homenageado. Filóxeno dirigiu-se aos guardas que cuidavam do tirano gritando: “Levem-me de volta para as pedreiras!…”

A história se conta a propósito das tentativas da presidente Dilma de dialogar com o Congresso.

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