Um governador abobalhado e um militar desonroso, na visão de um escritor imortal

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Natuza Nery não aguentou tanta tragédia e caiu no choro

Vicente Limongi Netto

“Governador abobalhado” é a mais recente e merecida “condecoração” dada ao nefasto Wilson Lima, governador do Amazonas, em extraordinário artigo escrito no Estadão por Ignácio de Loyola Brandão. Leiam este trecho: “Liguei a tevê, Globonews. Por que fiz? Mergulhei no horror, desumanidade, incompetência e desespero. Achei que era a guerra civil, ocasionado por um governador abobalhado e pela logística do Pazuello, o militar que mais desonra as Forças Armadas. É só vexame.”

Transcrevo, com prazer, o artigo de Loyola Brandão, membro da Academia Brasileira de Letras.

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A NOITE EM QUE NATUZA CHOROU
Ignácio de Loyola Brandão
(Estadão)

Há pouco tempo, na lista de meios já utilizados por mim, faltavam o camburão e a ambulância. Agora, só falta o camburão. Semanas atrás, incomodado por uma constipação intestinal, belo eufemismo da medicina, e pelo que me parecia um quisto em lugar incômodo, me vi no Pronto Atendimento, outra expressão mais tênue, simpática, do que pronto-socorro, que nos dava a sensação de fim de linha. Terminados alguns exames, me assustaram:

“O senhor vai direto para o hospital, a ambulância já está à espera”. Pronto, meu catastrofismo, herdado de minha mãe, aflorou. A vida inteira dona Maria do Rosário, boa e piedosa, teve medo de perder a casa, hipotecada à Caixa durante uma reforma. A casa está na família até hoje.

CADEIRA DE RODAS – Colocaram-me em uma cadeira de rodas, apesar de eu poder caminhar. Cadeira de rodas é boa nos aeroportos, principalmente no de Guarulhos, com seus corredores quilométricos. O motorista da ambulância me devolveu o humor. “Quer com emoção ou sem emoção? Ou seja, a toda velocidade com sirenes abertas ou normal?” Não sabia se eu ia morrer logo ou se dava tempo de chegar ao Einstein, respondi: “Sem emoção”.

Sem? Quem disse? As ruas estropiadas desta cidade são um inferno para quem vai deitado, sofrendo sacudidelas que não nos jogam no chão porque nos prendem com cinturões. Eu me imaginava louco metido em camisa de força.

PLANO DE SAÚDE – Por sorte (ou merecimento, não vá o psicoterapeuta Hiroshi Ushikusa dizer: pare com essa culpa), o convênio médico que a Academia Brasileira de Letras me concedeu cobre tudo e fui entregue ao doutor Alberto Goldenberg, que rápido correu com os procedimentos. Adoro esta palavra, é boa para tudo.

E eu pensava o quê? Aqui terá oxigênio? Ou me angustiava: claro que não conseguirão um diagnóstico. Sou o paciente que não anima nenhum médico. Mas alguém lá em cima – pode ser até no andar superior – olha por mim.

Neste momento, liguei a tevê. GloboNews. Por que fiz? Mergulhei no horror, desumanidade, incompetência e desespero, achei que era a guerra civil, ocasionada por um governador abobalhado e pela logística do Pazuello, o militar que mais desonra as Forças Armadas, é só vexame.

MORTE POR ASFIXIA – Tenebrosas e pungentes mortes por asfixia começaram a saltar da telinha. Tentar respirar e o ar não existir deve ser um horror. Isso de Manaus pode se repetir pelo Brasil, porque o governo garante que está fazendo a sua parte. E, quando ele garante isso, é melhor apanhar o passaporte. Falta de oxigênio deve ser uma morte tão horrorosa quando a provocada pelo gás Zyklon.

Senti-me mal, culpado (atenção Karnal), privilegiado. Estava preocupado com um coisa que acabou sem drama nenhum. E naquele mesmo momento havia pessoas sem respirar e a morrer, enquanto outras nem conseguiam enterrar seus mortos. Quantos Brasis existem dentro de um? Quanta diversidade social e financeira. Eu, privilegiado. Passei por tomografias em máquinas caríssimas, fiz exames laboratoriais cujos resultados saíam em minutos, mas em Manaus – e em tantas outras partes – tinha (e tem) gente sem respirar, sem atendimento, sem respirador e criminosamente sem vacina. Ah, e os fura-filas?

Então, pela primeira vez na minha vida, vi uma jornalista, Natuza Nery, não suportar e explodir em choro, enquanto relatava os fatos daquele inferno amazônico. Diante da crueldade, Natuza chorou. Lágrimas correram, ela parou de falar. Espectadores choraram. Fiquei travado, nunca me esquecerei. Breve cena de poucos minutos.

E OS RESPONSÁVEIS – Mas quem devia chorar, o presidente, os parlamentares, os ministros do Supremo, os generais tão invocados a todo momento, estes pouco se davam, se deram, se dão.

Agora, estou em casa salvo, escrevendo este texto pelo qual posso ser processado pelo ministro da Justiça. E a fila de mortos cresce, avoluma-se, é uma pilha, um Himalaia de pessoas.

Mas tudo bem, o procurador Aras está aí para salvar a pátria, ou o presidente. Passamos dos 215 mil mortos. Toda a população de Araraquara, onde nasci. Uma cidade inteira. Gente, seres humanos que vivem, trabalham, amam, comem, bebem, se divertem, riem, choram, têm prazer e dor, são felizes ou não. Gente que vive, quer viver, porque é bom, apesar de tudo.

Temos medo. Estamos angustiados. Todos, de todas as cores e modos e religiões e ideologias e fantasias e sonhos e desejos, estão na fila para morrer. Não chegou a hora de fazer alguma coisa?

8 thoughts on “Um governador abobalhado e um militar desonroso, na visão de um escritor imortal

  1. Mais intelectual esquerdista, como todo esquerdista é um desonesto. Além de falar do que não entende, tenta culpar o Presidente Bolsonaro e seu ministro pela incompetência e safadeza dos políticos vagabundos, alunos medíocres do corrupto Gilberto Mestrinho, que mandam e desmandam no estado do Amazonas há décadas.

  2. Vicente Limongi, excepcional a transcrição do artigo de Ignácio de Loyola Brandão. Escritor fantástico, membro da Academia Brasileira de Letras, escreve toda sexta no Estadão. Como assinante, não perco uma dele, sempre transmitindo seu vasto conhecimento sobre tudo. Simplesmente imperdível
    Tudo que ele escreveu assino embaixo. Não há uma linha, que não seja a mais pura expressão da verdade.
    Agora, vem um cidadão aí, dizer que ele é de esquerda. O que esse cara tem a ver com isso.
    Ser de esquerda, desqualifica um jornalista, um escritor ou outro profissional para exercer a sua profissão. Só os de direita é que são bons e confiáveis,?
    Ora, o importante é ser verdadeiro, competente, culto e preparado, tal e qual é Ignácio.
    No mesmo jornal, Estadão, escreve Mario Vargas Llosa, peruano, prêmio Nobel, considerado de direita e também imperdível.
    Qual é o problema?
    Quem fica botando esses rótulos nas pessoas, querem na verdade acirrar a polarização para vencer as eleições e continuar fazendo a mesma coisa, que a maioria dos políticos profissionais fazem: locupletarem- se do dinheiro público, para si, para a família e para os amigos.
    Quem perde são os bobos, que acreditam em lendas e mitos.
    De mitos gosto muito dos gregos: Eneida, Ilíada, etc… O resto, me tira dessa enganação para boi dormir.

  3. Turíbio, você não existe.
    Olhava para a imagem na tv e não conseguia encontrar uma denominação para o governador.
    É isso aí; “um abobalhado”.
    E quanto ao Pazzuelo eu sinto muita pena dele; ele irá servir de exemplo depois de “Judas” que não vale entregar nossa história, personalidade, família e etc… por trinta dinheiros.

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