Um grito contra a especulação

Carlos Chagas

Segunda-feira, na primeira sessão desta semana,  que por ser santa   também é morta, três senadores ocupavam o plenário. Um presidia, outro discursava e o terceiro ouvia. Foi pena para os 78 ausentes, porque o pronunciamento do senador Roberto Requião insere-se como um dos mais importantes do corrente ano. Sem fazer questão da presença dos gazeteiros, o ex-governador do Paraná começou analisando a crise econômica mundial para depois chegar ao Brasil e aos perigos que nos cercam.

Lembrou ser a especulação financeira a essência do mal que  de novo assola a Europa e os Estados Unidos,  lançando  olhares para a América do Sul. Em suas palavras, há uma impiedosa transferência de trilhões de dólares pelo mundo, sem compromisso com a vida do ser humano e atrás apenas do lucro fácil, favorecido e estimulando a inflação. A quebra das indústrias, o desemprego, a compressão dos salários, o aumento de impostos e o atraso tecnológico são consequências inevitáveis da especulação hoje acentuada em Portugal, Grécia, Irlanda, Espanha e outras  nações. Trata-se da receita obrigatória imposta pelos governos e entidades  internacionais, os mesmos responsáveis pela crise e agora empenhados em resolvê-la através  de métodos que só fazem piorar as agruras de suas populações.

Requião referiu-se aos privilégios exorbitantes concedidos aos Estados Unidos, centro do mercado financeiro de curto prazo, que elimina as economias nacionais e  nem por isso poupa a própria sociedade americana.  Em nome do lucro, cortam direitos sociais  e empregos, ao mesmo tempo gerando crises de representação e inflando o populismo de direita.

Para o senador, Brasil, China, Índia e Rússia devem levantar-se em contraposição ao domínio do dólar, levando a Europa a adotar  políticas de proteção ao trabalho e de prevalência da produção sobre a especulação. Investimentos precisam ser feitos em habitação, alimentação e educação. Cabe aos países em desenvolvimento pressionar os Estados Unidos e sacudir o jugo do capitalismo financeiro, sob pena de mergulharmos no abismo que já domina boa parte do mundo.

Lamentável foi o palco onde transcorreu a denúncia de Roberto Requião, carente de atores e de platéia, mas não se dirá que ele deixou de cumprir seu dever, também ignorado pela mídia. Sequer um registro de suas palavras mereceu espaço nos jornais de ontem. Fica o protesto.

PARAR ENQUANTO É TEMPO

Dispõe o artigo 220 da Constituição, no capítulo da Comunicação Social, que a lei estabelecerá mecanismos capazes de defender a pessoa e a família dos excessos da programação de rádio e televisão. Passados quase 23 anos da promulgação de nossa lei maior, nem Congresso nem governo tiveram coragem para dar início ao debate dessa óbvia necessidade, que nada tem a ver com censura. Trata-se de punir baixarias a posteriori para evitar que se repitam. Multas, advertências, suspensões e até cassação de concessões bastariam para restabelecer um mínimo de dignidade a nossas telinhas e microfones, hoje invadidos pelo que há de pior em termos de comunicação de massa.

O pavor de deputados e senadores, bem como de integrantes do governo, é de desagradar os barões televisivos e, assim, perderem espaço promocional e até ganharem perseguições.

Não dá, no entanto, para continuar assistindo programas que denigrem o cidadão, humilham a sociedade e induzem à quebra de valores inerentes à pessoa humana.

Dirão os responsáveis por esse lixo crescente estarem dando ao telespectador aquilo que ele deseja, daí o crescimento dos índices de audiência e a multiplicação da publicidade. Essa prática não caracteriza liberdade, senão licenciosidade. Caberia ao poder público agir, porque tudo tem limite, menos a desfaçatez de uns e a covardia de outros. Não será por falta de opção que o público aplaude as baixarias?

A CASA DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Brasília não é apenas a capital da República, sede dos três poderes da União. Na prática, constitui-se também na casa do presidente, dos parlamentares e dos grandes juízes. À exceção do fundador, porém, nenhum outro chefe do governo parece haver-se interessado pela sorte de seus vizinhos. Vivendo em palácios ou em guetos superprotegidos,  Suas Excelências e os Meretíssimos pouca importância dão ao que acontece à sua volta. Trafegam em comboios especiais que fecham o trânsito, no caso mais gritante do (da) presidente da República. Isso quando não utilizam helicópteros ligando residências a locais de trabalho e ao aeroporto. Por conta de uma pretensa segurança, omitem-se e se isolam da comunidade, com suas necessidades e despesas realizadas num território inexpugnável.

O resultado aí está: a casa do presidente da República e dos integrantes dos demais poderes virou a “Casa da Mãe Joana”, sem que eles se dêem conta nem se preocupem como que acontece no mundo à sua volta. No passado, ainda indicavam os  governantes locais, sentindo-se meio responsáveis pelo que acontecia. Ganhando autonomia política, Brasília ganhou também o desprezo das autoridades maiores. Seria bom que se integrassem, senão na vida comunitária, ao menos na recuperação de sua própria casa.

DESAFIO INCONSEQUENTE

Irrompeu  o sociólogo com mais uma de suas inconsequentes intervenções no reino ao qual não pertence mais, da política. Depois da indagação do ex-presidente Lula sobre porque teria estudado tanto para dizer bobagens, o ex-presidente Fernando Henrique ultrapassou o  limite das próprias, quer dizer, das  bobagens.

Com base em resultados eleitorais do passado, quando venceu por duas vezes o adversário, acaba de desafiá-lo para mais uma disputa. Claro que sabendo ser impossível, inviável e fantasioso esse novo embate. Jamais conseguiria sair candidato, nem pelo PSDB nem por qualquer outro partido. Mas se saísse, imagine-se o resultado…

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