Um mordomo em Brasília

Carlos Chagas

A História Real,  raras vezes   escrita,  pertence aos homens simples. Àqueles  que  participaram anonimamente dos grandes episódios da aventura humana, sejam  crises, convulsões,  sacrifícios, conquistas  e  vitórias. Epopéias, também. São, os homens simples, aqueles  que melhor testemunham e  definem o que aconteceu, porque os fatos  históricos  por eles  assistidos  representam   uma pequena  parte do todo  onde transcorre  sua existência.  Fatos  de grande expressão política, social, econômica e administrativa  mesclam-se ao dia-a-dia da rotina do cidadão comum.  Por isso,  são  lembrados como realmente aconteceram, numa  dimensão despojada  das fantasias com que as grandes figuras costumam condecorar-se, sempre que se dedicam a biografias ou a relatar o que raramente viram.

Sua Excelência, O Anônimo, torna-se  o cronista  principal da História, seja  por   julgar-se secundário,  seja por  transmitir sem interesses pessoais ou ideológicos o que realmente se passou diante de seus olhos.

José Dutra Ferreira  é um desses fenômenos raros de quem se dispôs, estimulado pela jornalista Rosalba Ribeiro da Matta Machado, a desfiar sua vida de mordomo de palácios e de residências oficiais, convivendo com ícones e com nulidades durante largo período da República brasileira. Dá importância  a golpes e a  conspirações que assistiu desenvolverem-se  tanto quanto  ao nascimento de filhos e  a mudança de residências na recém-criada nova capital do país.

Apresentações e prefácios costumam ser obstáculos com  que o leitor se depara antes de chegar à sua própria análise das narrativas. Deveriam  ser banidos da prática editorial, se os editores tivessem um pouco  mais de bom-senso.

De qualquer forma, à maneira de um canapé mal-requentado servido  antes de lauta refeição, recomendo atenção a fundamentais e significativas revelações de José Dutra Ferreira neste “Um Mordomo em Brasília”.

Poderão  mudar a interpretação da História, como por exemplo o anúncio que Jânio Quadros fez à sua mãe, no palácio da Alvorada,  em plena mesa de almoço, que iria renunciar  à presidência da República. Porque a comunicação  aconteceu no dia 13 de agosto de 1961, quando até agora se tem como certa a  versão de que o singular presidente decidiu-se deixar o  poder apenas a 24 daquele mês, um dia  antes do tresloucado gesto que intentava a decretação de uma ditadura.

Mil  depoimentos dão conta até hoje de que Carlos Lacerda foi convidado por Jânio Quadros para hospedar-se no palácio da Alvorada e, depois de instalar-se, teve sua mala deixada na guarita e um recado para que fosse hospedar-se num hotel. Dutra contesta, relatando que ao  saber que Lacerda estava no portão, o presidente teve um acesso de raiva, gritando “Não! Não e não!”

Para a frente e  para trás, as revelações surgem polêmicas.  Alguém  soube, até agora,  que em 1955 o  então chefe da campanha de Juscelino Kubitschek à presidência da República, Tancredo Neves, teve seu quarto de hotel em São Paulo violado por parafernálias eletrônicas destinadas a gravar suas conversas  particulares e telefônicas? E quem mandou gravar, senão o governador paulista, Jânio Quadros?

Como tinha sido  Dutra a  perceber e a informar  a espionagem, Tancredo travestiu-se de “007” e marcou um encontro com ele na porta dos fundos do hotel Othon, de onde foram para um restaurante, de táxi, com ordens do político mineiro para que nada conversassem enquanto não chegassem ao destino. Lá, Dutra recomendou a Tancredo para que,  quando voltasse,   olhar debaixo da mesinha do telefone, onde se encontravam fios desnecessários.  Comprovado o grampo, o futuro presidente da República só conversava sobre futebol, quando em seus aposentos, nos dias em que permaneceu em São Paulo.

Fica esclarecido  que a Granja do Ipê, residência de ministros, teve seu nome tirado não da tradicional e florida rainha de nossa flora, mas das iniciais “I.P.” que definiam a residência de Israel Pinheiro. Até hoje não se encontra um ipê na granja.

É inédita a explicação de Juscelino sobre porque chorou durante a missa de inauguração da nova capital: “Somente naquele momento tomei plena  consciência de que inaugurávamos Brasília…”

Na sua última refeição no palácio da Alvorada, JK exortou seus convidados a não pouparem a comida, dizendo: “Avança,  macacada, porque o Jânio vem aí…”

Outro testemunho de quem estava lá e não pode ser desmentido por milhares de  versões é de que jamais serviu uísque ao então presidente Jânio Quadros,  que não  tomava aguardente e limitava-se a uma pequena garrafa de cerveja, nas refeições.  Dona Eloá, a primeira-dama,  proibiu que se servissem dois tipos de carne no almoço e  no  jantar, por razões de economia. E doze dias antes da renúncia do marido, mandou fechar os escritórios da Legião Brasileira de Assistência, que dirigia, trancando tudo.

Quantos saberão  que logo após Jânio Quadros deixar o Alvorada, com a renúncia, um grupo de coronéis e majores do Exército ocupou a residência oficial, cortando os cabos telefônicos e mantendo os funcionários presos e incomunicáveis por três dias, dizendo um dos oficiais que não era para preocuparem-se, porque em cinco ou dez dias Jânio voltaria…

A permanência de João Goulart no poder  destacou-se pelos sucessivos pedidos de  água fervente, de dia e de noite, para o chimarrão com seus hospedes e visitantes.

Ainda sobre o novo presidente, a revelação de que seus funcionários ficavam na maior parte dos dias sem saber onde ele iria dormir, se no Alvorada, na Granja do Torto ou em lugar incerto e  não sabido, “porque ficamos sabendo que um grupo de militares o vigiava dia e noite e tínhamos a impressão de que ele mudava de lugar para sentir-se mais à vontade”…

Fantástica é a história de que um oficial do  exército invadiu o Alvorada, imobilizou a guarda e os funcionários e, percebendo que Jango não se encontrava lá, mandou vir um carro oficial para leva-lo à Granja do Torto, gritando que precisava ir lá para matar o presidente João Goulart! Dutra conseguiu telefonar para Evandro Lins e Silva, chefe da Casa Civil, que mandou a polícia prender  o suposto  assassino quando chegava à residência presidencial alternativa.

No período inicial do golpe militar, o mordomo foi servir ao chefe da Casa Civil, Luiz Viana Filho, na Granja do Ipê, mas antes de deixar o Alvorada conta que homens de preto viviam interferindo nos serviços mais rotineiros junto ao presidente Castello Branco.

E mais uma infinidade de revelações que não vamos poupar o leitor de colhe-las em primeira mão. Em suma, episódios desconhecidos da História Real que agora se inserem na História Formal.

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