Um país partido entre dois partidos

 João Gualberto Jr.

A polarização entre PT e PSDB dava pinta de ser ideia de marqueteiro. Parecia ser mera adaptação, de ambas as partes, ao “mercado dos votos”, em que cada grupo ocupa um lado do nicho ou um hemisfério da gôndola do supermercado. Ou, ainda, dava a impressão de que cada partido queria fazer crer que seus produtos estavam disponíveis em lojas frequentadas preferencialmente por um perfil específico de consumidor.

Para além do marketing, a preferência da sociedade, na real, era bem mais complexa. Errado. Os resultados do primeiro turno foram incríveis em sua capacidade de seccionar o Brasil ao meio. Ou petistas e tucanos são genuínos no que sempre venderam e, de fato, representam cada um uma metade, ou a imagem publicitária de país partido colou na realidade.

Causa e efeito não necessariamente nessa ordem, podemos afirmar sem medo de errar que a eleição rachou o Brasil ao meio. Já foi estampada em demasia a divisão geográfica. Segundo o mapa dos vitoriosos no primeiro turno, Dilma foi a preferida do Norte e do Nordeste – com exceção de Acre e Pernambuco, onde Marina venceu –, e Aécio liderou no Sul e no Sudeste, obtendo sua maior vantagem no Estado mais poderoso e populoso, São Paulo.

FISSURA SOCIAL

Mas a fissura que mais impressiona não é essa, do mapa, mas as sociais. O jornal “O Globo” disponibilizou gráficos em que cruza as votações dos principais candidatos à Presidência e os resultados em municípios que ocupam campos extremos em termos de indicadores sociais como renda per capita, mortalidade infantil, analfabetismo, miséria e presença do Bolsa Família. As dispersões comparadas entre Dilma e Aécio são chocantemente invertidas: nos casos em que se traçou uma reta decrescente para ela a respeito de determinado indicador, a reta para ele era crescente, ou vice-versa, como num espelho.

Portanto, temos, sem dúvida: Dilma; candidata dos mais pobres, dos menos escolarizados, dos que mais dependem de benefícios de renda transferida e dos que convivem ou conviveram com mazelas sociais; contra Aécio, candidato dos mais ricos, dos mais escolarizados, dos que não precisam receber repasses do poder público e dos que não sofrem das doenças de nossa sociedade.

A descrição soa como um simplismo maniqueísta? Sim, soa, mas é o eco que saiu das urnas no dia 5. E o que motiva a divisão tão clara talvez seja a resposta a apenas uma pergunta: você defende que o Estado interfira na sociedade brasileira com maior ou menor magnitude para, entre outros motivos, ditar os rumos da economia e buscar reduzir as disparidades sociais? Para cada um dos extremos desse continuum, há um candidato fincado.

O eleitor que escolhe um lado tem o mesmo poder e a mesma importância do que aquele que prefere o outro lado. É discriminatório afirmar que um vota com o estômago e outro, com a carteira. São ambas as posições racionais, e o preconceito e a intolerância ao divergente podem levar ao Brasil, para além da cisão social, a antagonismos menos desejosos, como o certo contra o errado, o inteligente contra o burro, o bem contra o mal.  (transcrito de O Tempo)

11 thoughts on “Um país partido entre dois partidos

  1. Pois é, em 12 anos teria dado para melhorar muito o acesso ao saneamento, à educação, à saúde da parte vermelha dos mapas que apontam onde venceu cada candidato. No entanto, os brasileiros da área vermelha só receberam a mixuruca bolsa-voto. Enquanto isso, nos mesmos 12 anos, a turma que avermelhou nossos norte e nordeste meteu a mão em 10 bi de dólares da Petrobras. O que não teria dado para fazer com esse dinheiro, hein?!

    • Grande verdade Mara, tem que haver rodizio no comando do país, o Brasil precisa encontrar seu caminho pois temos todos os recursos necessários pra ser um país rico em saúde, segurança, educação e não passar nunca mais pelo vexame desse mar de lama.(roubalheiras sem fim)
      Um abraço.

    • Prezado Sérgio de Freitas,

      O Helio Fernandes está bem, graças ao bom Deus, mas se afastou do blog para fazer uma cirurgia de catarata. Acredito que dentro de alguns dias ele volte à ativa. Mas o que eu estranhei mesmo, Sérgio, foi o fato de o nome dele ter sumido e aparecido em letras enormes o nome do Mazolla, que edita o blog.

      Vamos aguardar para ver se o Helio volta, mesmo.

      Abs.

      CN

  2. Ponto Eletrônico: “Sorria, Dillma. Agora fala do Pronatec. Sorria. Não derruba o microfone. Não baba. Fala do Pronatec. Sorria. Mete o pau no FHC. Sorria. Não late. Xinga o Arminio. NÃO É ARMÍRIO!! É ARMÍNIO!!” Agora fala do Pronatec de novo…”

  3. Curiosamente a análise do artigo também é maniqueísta.
    A rachadura que se processou no país não é tão clara como querem.
    Os mais pobres votam no PT?
    Então São Paulo tem mais ricos do que pobres?
    E Pernambuco é o único estado do NE que tem poucos pobres?

    O que ocorre é que onde os CORONÉ MANDA a população tanto rica como pobre obedece.
    É sintomático desta assertiva que em Pernambuco, a tradição socialista de Arraes seguida por Eduardo Campos, manteve o coronelismo sob controle sem os exageros de Alagoas e Maranhão.
    Isso permitiu uma consciência política maior da população. Quem conhece Recife sabe disso.
    O nefasto conluio coronel-sindicalista que foi a opção imposta pela ala vitoriosa dentro do PT, logo após a posse em 2002, é que partiu o país ao meio.
    Com que objetivo “socialistas” se aliariam à coronéis oriundos da ditadura?
    A última palavra da frase acima contém a resposta.

  4. Talvez a primeira acertiva do articulista está errada. O Brasil não está dividido entre o PT e o PSDB. O Brasil, hoje, se divide entre a honestidade, embora ela venha pelo caminho errado e a desonestidade do governo atual. Cada vez está mais claro que a população quer uma mudança da mesma forma que a quiz em 2002 e a mudança passa por gente nova. Se a população tivesse elegido menos picaretas para o congresso a mudança seria, ainda, mais fácil.

  5. Quem é que sustenta o país? Os pagadores de impostos? Os velhos coronéis aliados aos petralhas? Os próprios petralhas? O governo com suas tetas gordas ? Claro que a respostá é óbvia. A outra questão é até quando? Até quando os pagadores de impostos vão ter paciencia, estomago e até mesmo renda para continuar sustentando esses vagabundos sanguessugas, principalmente esses insaciáveis petralhas?

  6. Pingback: Um país partido entre dois partidos | Debates Culturais – Liberdade de Idéias e Opiniões

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *