Um poema de Ariano Suassuna, com jeito de amor e morte numa noite perigosa

Resultado de imagem para ariano suassunaPaulo Peres
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O dramaturgo, romancista e poeta paraibano Ariano Vilar Suassuna (1927-2014), no poema “Noturno”, questiona-se sobre a ligação que faz entre amor e morte.

NOTURNO
Ariano Suassuna

Tem para mim Chamados de outro mundo
as Noites perigosas e queimadas,
quando a Lua aparece mais vermelha.
São turvos sonhos, Mágoas proibidas,
são Ouropéis antigos e fantasmas
que, nesse Mundo vivo e mais ardente
consumam tudo o que desejo Aqui.

Será que mais Alguém vê e escuta?

Sinto o roçar das asas Amarelas
e escuto essas Canções encantatórias
que tento, em vão, em mim desapossar.

Diluídos na velha Luz da lua,
a Quem dirigem seus terríveis cantos?

Pressinto um murmuroso esvoejar:
passaram-me por cima da cabeça
e, como um Halo escuso, te envolveram.
Eis-te no fogo, como um Fruto ardente,
a ventania me agitando em torno
esse cheiro que sai de teus cabelos.

Que vale a natureza sem teus Olhos,
ó Aquela por quem meu Sangue pulsa?

Da terra sai um cheiro bom de vida
e nossos pés a Ela estão ligados.
Deixa que teu cabelo, solto ao vento,
abrase fundamente as minhas mãos…

Mas não: a luz Escura inda te envolve,
o vento encrespa as Àguas dos dois rios
e continua a ronda, o Som do fogo.

Ó meu amor, por que te ligo à Morte?

5 thoughts on “Um poema de Ariano Suassuna, com jeito de amor e morte numa noite perigosa

  1. Linda poesia

    Aqui morava um Rei – Ariano Suassuna

    Aqui morava um rei quando eu menino
    Vestia ouro e castanho no gibão,
    Pedra da Sorte sobre meu Destino,
    Pulsava junto ao meu, seu coração.

    Para mim, o seu cantar era Divino,
    Quando ao som da viola e do bordão,
    Cantava com voz rouca, o Desatino,
    O Sangue, o riso e as mortes do Sertão.

    Mas mataram meu pai. Desde esse dia
    Eu me vi, como cego sem meu guia
    Que se foi para o Sol, transfigurado.

    Sua efígie me queima. Eu sou a presa.
    Ele, a brasa que impele ao Fogo acesa
    Espada de Ouro em pasto ensanguentado.

  2. Por Klévisson Viana e Bule-Bule

    Nos palcos do firmamento
    Jesus concebeu um plano
    De montar um espetáculo
    Para Deus Pai Soberano
    E, ao lembrar de um dramaturgo,
    Mandou buscar Ariano.

    Jesus mandou-lhe um convite,
    Mas Ariano não leu.
    Estava noutro idioma,
    Ele num canto esqueceu,
    Nem sequer observou
    Quem foi que lhe escreveu.

    Depois de um tempo, mandou
    Uma segunda missiva.
    A secretária do artista
    Logo a dita carta arquiva,
    Dizendo: — Viagem longa
    A meu mestre não cativa.

  3. “Tem para mim Chamados de outro mundo
    as Noites perigosas e queimadas,
    quando a Lua aparece mais vermelha.
    São turvos sonhos, Mágoas proibidas,
    são Ouropéis antigos e fantasmas
    que, nesse Mundo vivo e mais ardente
    consumam tudo o que desejo Aqui.

    Será que mais Alguém vê e escuta?

    Sinto o roçar das asas Amarelas
    e escuto essas Canções encantatórias
    que tento, em vão, em mim desapossar.”

    Noturno foi escrito em 1945, Ariano tinha 19 anos, poema que numa noite de lua cheia, ele sente sair de si mesmo, vê lembranças do passado, ouve roçar de asas, chegando a pensar num que está num mundo estranho em que liga a sua amada à norte.

    Salve também o Auto da Compadecida que tanto sucesso fez!

  4. Paulo, permita-me lembrar que hoje seria niver do grande Nelson Rodrigues. Vivo fosse, veria que o “complexo de vira-lata” continua vivo entre os deslumbrados. Veria que o seu time Fluminense, continua sendo tricolor,três cores são os outros.
    Autor de peças de teatro, crônicas esportivas (À sombra das chuteiras imortais” A pátria de chuteiras,
    “A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem.

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