Um poema denunciando a desigualdade social, na visão crítica de Mário de Andrade

90 anos da Semana de Arte Moderna (1922) – JOAQUIM

Mário de Andrade, retratado por Tarsila do Amaral

Paulo Peres
Poemas & Canções

O romancista, musicólogo, historiador, crítico de arte, fotógrafo e poeta paulista Mário Raul de Moraes Andrade (1893-1945) faz, neste poema, uma comparação entre o homem de um grande centro urbano e a vida precária de um seringueiro, o homem do Norte, naquela época uma região praticamente abandonada pelas autoridades. Logo, trata-se de uma forma indireta de denúncia bem própria do Modernismo da primeira geração.

DESCOBRIMENTO

Mário de Andrade

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte,
meu Deus! muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro
de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.

2 thoughts on “Um poema denunciando a desigualdade social, na visão crítica de Mário de Andrade

  1. Escritores, poetas, jornalistas ou qualquer literato; assim como os filósofos e sociólogos mostram-se mestres em modelos descritivos, mas que, na prática, suas ideias são inexequíveis, como toda emanação intimista! Esses senhores vivem a surfar na maionese, assim acabam morrendo frustrados sem verem suas fósmeas se plasmarem.
    Essa utópica igualdade social, nem Lennin e seus replicantes, mundo afora, conseguiram implementar.
    A estratificação é a pedra angular de todas as formas do poder terreno. Em tempo algum houve sociedades ou grupos sociais monolíticos, ou com indivíduos equipendentes entre si.
    Derrota, fracasso, marasmo: na grande maioria das vezes é culpa tão somente do próprio indivíduo “autovitimizado” e/ou da ascendência que o germinou desprovida de planejamento, e sem nenhuma perspectiva do que viria a ser o seu descendente, na posteridade!

  2. Uns atribuem a vida que levam ao destino, outros pensam que podem construir a própria sorte. Quem tem razão?

    O Destino
    ========

    Sou uma estrada sinuosa,
    Por mim passam todas as gentes:
    Homens simples, mulheres vaidosas,
    Ricos, pobres, culpados, inocentes.

    Levo a vida a todos os nortes,
    Por vales e montes vagueio,
    Levo à fama, à miséria, à morte,
    Sou idealizado em devaneios!

    Mudo com o adverso e o querer,
    Mas à realidade me confino,
    Sou o que voce é ou venha a ser,
    Melhor dizer: sou o destino.

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