Um poema desesperado de Adalgisa Nery, em busca de explicação para os mistérios da vida

TRIBUNA DA INTERNET | O amor desesperado de Adalgisa Nery, “antes e depois  de todos os acontecimentos”

Adalgisa Nery, retratada pelo amigo Portinari

Paulo Peres
Poemas & Canções

A jornalista e poeta carioca Adalgisa Maria Feliciana Noel Cancela Ferreira (1905-1980), era mais conhecida como Adalgisa Nery, após o casamento com o pintor Ismael Nery. No poema “Pensamentos Que Reúnem Um Tema”, ela  fica imaginando os que possuem a paz de não pensar.

PENSAMENTOS QUE REÚNEM UM TEMA
Adalgisa Nery

Estou pensando nos que possuem a paz de não pensar,
Na tranquilidade dos que esqueceram a memória
E nos que fortaleceram o espírito com um motivo de odiar.
Estou pensando nos que vivem a vida
Na previsão do impossível
E nos que esperam o céu
Quando suas almas habitam exiladas o vale intransponível.
Estou pensando nos pintores que já realizaram para as multidões
E nos poetas que correm indefinidamente
Em busca da lucidez dos que possam atingir
A festa dos sentidos nas simples emoções.
Estou pensando num olhar profundo
Que me revelou uma doce e estranha presença,
Estou pensando no pensamento das pedras das estradas sem fim
Pela qual pés de todas as raças, com todas as dores e alegrias
Não sentiram o seu mistério impenetrável,
Meu pensamento está nos corpos apodrecidos durante as batalhas
Sem a companhia de um silêncio e de uma oração,
Nas crianças abandonadas e cegas para a alegria de brincar,
Nas mulheres que correm mundo
Distribuindo o sexo desligadas do pensamento de amor,
Nos homens cujo sentimento de adeus
Se repete em todos os segundos de suas existências,
Nos que a velhice fez brotar em seus sentidos
A impiedade do raciocínio ou a inutilidade dos gestos.
Estou pensando um pensamento constante e doloroso
E uma lágrima de fogo desce pela minha face:
De que nada sou para o que fui criada
E como um número ficarei
Até que minha vida passe.

3 thoughts on “Um poema desesperado de Adalgisa Nery, em busca de explicação para os mistérios da vida

  1. Sou livre como um gavião
    No seu voo alto e sereno
    De longe vejo o pequeno
    E pouso com precisão.

    Na vida importa saber viver,
    O que firmemente venero,
    E não temo um dia morrer
    Se na vida tiver o que quero:

    A mulher do vizinho Homero!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *